Investigadores concluíram que extensas áreas da Austrália reúnem condições adequadas para a broca-do-buraco-de-tiro polífaga, um escaravelho que mata árvores e que já devastou milhares de exemplares urbanos em Perth.
O que parecia ser apenas um problema regional passa, assim, a soar como um alerta nacional: copas urbanas, pomares e florestas nativas podem ficar em risco muito para lá das fronteiras da Austrália Ocidental.
Perth torna-se a prova
Em Perth, parques sem árvores e margens de rios com sombra em falta expõem a dimensão do estrago desde que a broca-do-buraco-de-tiro se instalou em árvores adultas.
Uma equipa da Curtin University registou de que forma a praga se foi disseminando pela copa urbana e verificou que os mesmos factores ambientais estão presentes em amplas zonas do país.
Os padrões observados sugerem que o surto de Perth não foi uma anomalia isolada, mas sim um exemplo precoce do que pode acontecer quando clima favorável e árvores hospedeiras coincidem.
Este quadro de vulnerabilidade alargada mostra como um insecto tão pequeno consegue desencadear perdas de árvores à escala de uma cidade - e potencialmente mais.
Como o escaravelho mata as árvores
Depois de entrar num ramo, a broca-do-buraco-de-tiro polífaga - um pequeno escaravelho invasor do Sudeste Asiático que “cultiva” um fungo - não provoca a morte apenas por perfurar madeira.
O verdadeiro impacto surge porque o insecto promove o crescimento de um fungo que entope os canais internos por onde circulam água e nutrientes, deixando ramos com stress hídrico, enfraquecidos e quebradiços.
Orientações estaduais indicam que a praga já afectou mais de 500 espécies de plantas em todo o mundo e que mais de 100 permitem a reprodução tanto dos escaravelhos como do fungo.
A combinação entre galerias escavadas e bloqueio fúngico ajuda a explicar como um insecto pouco maior do que uma semente de sésamo consegue “limpar” copas com tanta rapidez.
Os humanos espalham a praga
Por si só, a broca-do-buraco-de-tiro não se desloca grandes distâncias; no entanto, as pessoas podem transportá-la inadvertidamente entre bairros - ou até entre estados.
Lenha verde (não seca), mulch, resíduos verdes e plantas lenhosas de viveiro podem esconder material infestado tempo suficiente para dar origem a novos focos.
Os novos mapas nacionais estimam que a dispersão natural poderá chegar a cerca de 3,2 quilómetros (2 milhas) por ano, enquanto a deslocação associada à actividade humana pode levá-la muito mais longe e muito mais depressa.
Daí a insistência das autoridades numa regra simples: comprar lenha localmente e manter os resíduos locais na mesma área.
Árvores urbanas em risco
O risco aumenta onde árvores comuns de ruas e parques correspondem às preferências do escaravelho - e várias capitais australianas já se enquadram nesse cenário.
Plátanos-de-Londres em Melbourne, figueiras em Sydney, poinsétias em Brisbane e figueiras-de-Moreton-Bay em Adelaide estão entre os grupos considerados vulneráveis.
Perth já mostrou como a sombra “de eleição” pode desaparecer depressa quando a infestação começa, deixando os parques mais quentes, mais despidos e mais expostos.
Esta perda urbana não é apenas estética: sem copa arbórea, as ruas perdem capacidade de arrefecimento, habitat e abrigo, precisamente em zonas já pressionadas pelo calor.
Agricultura e florestas também em risco
A ameaça não termina nos limites da cidade, porque a broca-do-buraco-de-tiro também pode atacar culturas e árvores fora das zonas ajardinadas.
Abacates, citrinos, mangas e peras estão entre as culturas vulneráveis, aumentando a probabilidade de prejuízos que afectam directamente os produtores.
Marri e goma-vermelha-de-floração também surgem na zona de perigo, embora o impacto total nas florestas nativas continue por determinar.
Essa incerteza funciona, por si só, como aviso: danos em matos e bosques podem arrastar custos ecológicos muito depois de caírem as primeiras árvores urbanas.
Porque é que os abates continuam
Após anos de abate de árvores infestadas, as autoridades concluíram, a 18 de junho de 2025, que a erradicação da broca-do-buraco-de-tiro já não era tecnicamente viável.
As orientações actuais referem que não existe um tratamento químico eficaz que chegue de forma fiável aos escaravelhos, porque o fungo bloqueia as vias internas e as pulverizações à superfície não atingem os insectos.
Ainda assim, na periferia do foco continua a recorrer-se à poda e à remoção, já que, onde há menos árvores infestadas, é possível abrandar a saída para lá da linha de quarentena de Perth.
É uma estratégia dura, com ganhos imediatos limitados, mas continua a ser a ferramenta mais clara para proteger as árvores saudáveis nas imediações.
A investigação começa a recuperar terreno
Com o fracasso da erradicação em larga escala, o financiamento para investigação está finalmente a orientar-se para detecção, controlo e gestão de longo prazo.
Equipas universitárias apoiadas pelo estado estão agora a trabalhar ao abrigo de um pacote de $2.17 million destinado a melhorar métodos de detecção, vigilância e controlo.
Isto é importante porque avisos mais cedo permitem que as equipas cheguem a novos pontos críticos com maior rapidez, antes de as infestações se tornarem dispendiosas e difíceis de remover.
Os projectos não vão trazer curas imediatas, mas podem dar às respostas futuras mais opções do que motosserras e quarentenas.
Biossegurança sob pressão
Respostas oficiais no Parlamento apontaram para detecções perto de 4,800, remoções em torno de 4,500 e despesas na ordem dos $57 million.
“É preciso conseguir lubrificar o fluxo de dados entre organizações”, afirmou o Professor Ben Phillips, biólogo de populações na Curtin University.
Phillips defendeu também que os governos precisam de parcerias de investigação mais rápidas, para que novas detecções não avancem mais depressa do que o trabalho de laboratório e as decisões no terreno.
“É mesmo urgente”, disse Phillips, reforçando a mensagem de forma ainda mais directa em público.
O que os residentes podem fazer
Para os residentes, a ajuda mais útil continua a assentar em hábitos simples: verificar árvores, limpar ferramentas e comunicar cedo a presença de furos suspeitos.
A recomendação estadual pede ainda que as pessoas evitem mover plantas, madeira ou resíduos verdes para fora de áreas com infestação conhecida.
As fotografias tornam-se mais úteis quando um régua ou uma caneta esferográfica é colocada ao lado do furo, facilitando a avaliação do tamanho por parte dos inspectores.
Estas escolhas pequenas não apagam as perdas de Perth, mas podem influenciar se o próximo surto fica confinado a um local ou se se espalha.
Um alerta a tempo
Os parques despidos de Perth, os pomares ameaçados e a resposta dispendiosa mostram como um escaravelho com pouca capacidade de dispersão natural pode transformar-se numa ameaça nacional.
A Austrália ainda pode ganhar tempo noutras regiões, mas isso depende de comunicação rápida, regras mais apertadas sobre movimentação e investigação a um ritmo mais elevado.
Informação a partir de um comunicado de imprensa da Western Australia Agricultural Research Collaboration.
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