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Como a intensidade de desenvolvimento dos bairros pode reduzir o risco de primeiro AVC, segundo a Universidade do Michigan

Homem a caminhar numa calçada urbana com saco de compras enquanto duas pessoas trabalham num café ao ar livre.

A saúde costuma ser apresentada como uma questão de escolhas individuais - o que comemos, quanto nos mexemos e se seguimos ou não as indicações médicas. No entanto, cada vez mais investigação aponta para um factor igualmente determinante, mas muitas vezes ignorado: os lugares onde vivemos.

Do desenho das ruas à distância até ao supermercado ou à clínica mais próxima, o ambiente do dia a dia influencia discretamente a forma como nos deslocamos, o que compramos e como cuidamos de nós.

Um novo estudo indica agora que estes elementos podem ir ainda mais longe, afectando o risco de AVC, uma das principais causas de incapacidade e de morte.

Ao analisarem a maneira como os bairros são construídos e como as pessoas se relacionam com esses espaços ao longo do tempo, investigadores da Universidade do Michigan identificaram uma associação inesperada entre o desenvolvimento urbano e a saúde cerebral a longo prazo.

Repensar os riscos de saúde nas cidades e o risco de AVC

É comum assumir-se que viver numa cidade movimentada prejudica a saúde por causa da poluição, do ruído e do stress.

Este trabalho propõe uma leitura diferente: residir numa zona mais desenvolvida poderá, na verdade, reduzir a probabilidade de sofrer um primeiro AVC.

A investigação acompanhou mais de 25.000 adultos em todo os Estados Unidos durante mais de dez anos. No final, os dados mostraram que quem vivia em bairros com maior nível de desenvolvimento apresentava cerca de menos 2.5 percent de risco de AVC.

À primeira vista, a diferença pode parecer reduzida. Ainda assim, sendo o AVC uma das grandes causas de incapacidade e mortalidade, uma descida pequena no risco pode traduzir-se em benefícios relevantes para um grande número de pessoas.

Como se mede a forma como os bairros são construídos

O estudo centrou-se no conceito de intensidade de desenvolvimento, isto é, no grau de ocupação construída de um bairro. Em áreas muito desenvolvidas há mais edifícios, vias, comércio e serviços. Já em zonas menos desenvolvidas existe mais terreno aberto e menos infra-estruturas.

Para quantificar este aspecto, os investigadores recorreram a informação do United States Geological Survey. Avaliaram, em torno de cada casa, a proporção de solo ocupada por construções e a parte que permanecia natural, o que permitiu traçar um retrato mais objectivo de cada bairro.

“High-intensity development typically includes greater housing density and more commercial or retail outlets,” disse a co-autora do estudo, Dra. Cathy Antonakos, do Laboratório de Ambiente e Políticas da Universidade do Michigan.

“Estas zonas têm maior probabilidade de apresentar usos do solo mais compactos, com acesso a cuidados de saúde, lojas de alimentos, transportes públicos e infra-estruturas para actividade física, como passeios, ciclovias e parques.”

Acompanhar padrões de AVC ao longo do tempo

A análise baseou-se em dados do estudo REGARDS, sigla de Razões para Diferenças Geográficas e Raciais no AVC. Trata-se de um projecto de grande escala iniciado em 2003, concebido para acompanhar padrões de AVC em diferentes regiões dos Estados Unidos.

O REGARDS incluiu adultos com 45 anos ou mais e monitorizou a sua saúde durante cerca de 10 anos. Ao longo desse período, alguns participantes sofreram AVC, o que permitiu identificar tendências e relacioná-las com o contexto residencial.

O projecto dá também uma atenção especial aos bairros do sudeste dos Estados Unidos, região conhecida como o Cinturão do AVC. Aí, as taxas são mais elevadas, sobretudo entre os norte-americanos negros.

Este enfoque ajuda a esclarecer de que forma o local de residência pode influenciar a saúde em comunidades distintas.

Uma forma mais inteligente de estudar os bairros

Estudos anteriores, muitas vezes, limitavam-se a comparar áreas urbanas e rurais através de categorias simplistas, o que deixava muitos pormenores de fora. Neste caso, a equipa recorreu a uma abordagem mais sofisticada para obter resultados mais robustos.

Foram usados dados de satélite para acompanhar a evolução dos bairros ao longo do tempo. A avaliação considerou áreas num raio de cerca de cinco milhas (cerca de oito quilómetros) em torno de cada casa.

Esta distância procura representar até onde uma pessoa pode deslocar-se para necessidades diárias, como fazer compras ou aceder a cuidados médicos.

O método teve ainda em conta mudanças que ocorreram quando os participantes mudaram de casa ou quando a zona se desenvolveu.

Mesmo após ajustarem os resultados a factores como idade, rendimento e estado de saúde, a associação entre maior desenvolvimento e menor risco de AVC manteve-se sólida, sugerindo que o ambiente envolvente tem um papel real.

De que forma os bairros moldam a saúde

Bairros mais desenvolvidos tendem a facilitar escolhas saudáveis. Hospitais e clínicas estão, em regra, mais perto, o que favorece consultas regulares e tratamento atempado. Também é mais provável existir oferta de alimentos frescos e opções consideradas mais saudáveis.

Passeios, parques e ciclovias tornam mais simples manter a actividade física. Caminhar e fazer exercício contribui para controlar a tensão arterial e melhorar a saúde cardiovascular, factores que ajudam a reduzir o risco de AVC.

Em zonas menos desenvolvidas, chegar a serviços essenciais pode exigir mais tempo e deslocações mais longas. Percursos maiores podem diminuir a actividade física e aumentar o tempo passado sentado.

Embora as áreas mais densas possam implicar mais ruído ou poluição, o estudo sugere que as vantagens associadas ao acesso e às infra-estruturas podem compensar esses efeitos.

O que isto significa para o dia a dia

Os resultados reforçam que a saúde não depende apenas de hábitos pessoais. O contexto físico também condiciona escolhas quotidianas e níveis de risco. Por isso, ao avaliar o risco de AVC, poderá ser útil que os médicos considerem onde a pessoa vive.

“Para os médicos, o estudo sugere que factores ao nível do bairro podem influenciar o risco de um primeiro AVC, para além de factores ao nível individual,” afirmou a Dra. Antonakos.

Os planeadores urbanos também podem retirar lições desta evidência. Bairros desenhados com vias seguras, parques e acesso simples a serviços podem contribuir para melhorar a saúde pública. Um bom planeamento pode apoiar estilos de vida mais saudáveis ao longo do tempo, muitas vezes sem que as pessoas se apercebam.

O que vem a seguir na investigação sobre AVC

A equipa pretende agora perceber que componentes têm maior peso. O acesso a parques, transportes públicos ou cuidados de saúde poderá, cada um, contribuir para reduzir o risco de AVC, e estudos futuros poderão detalhar estas relações.

Há também limitações a considerar: não foram medidos aspectos como stress, criminalidade ou condições de vida anteriores, que também podem influenciar os resultados em saúde.

Ainda assim, a mensagem principal é clara: um bairro bem desenvolvido pode apoiar uma melhor saúde e diminuir o risco de condições graves como o AVC.

Esta investigação foi publicada na revista Cities & Health.

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