Passar menos tempo sentado tornou-se um conselho de saúde quase automático. Porém, um grande estudo com imagiologia cerebral sugere que essa recomendação, por si só, deixa escapar um pormenor importante.
Para a saúde do cérebro, o tipo de tempo passado sentado parece fazer diferença. Ver televisão não equivale a estar sentado num trabalho de secretária.
Os investigadores acompanharam 1.712 adultos desde a meia-idade até aos 70 e tal anos, com avaliações separadas por mais de duas décadas. Mais tarde, realizaram exames ao cérebro dos participantes.
Quem via televisão com muita frequência apresentou piores resultados: as regiões ligadas à memória e ao pensamento eram mais pequenas e as imagens mostravam mais sinais de lesão nos vasos sanguíneos.
O tipo de tempo sentado conta para o cérebro
Nem todo o tempo sentado pesa da mesma forma no cérebro - esta é a mensagem central dos novos resultados.
No conjunto dos dados, ver televisão associou-se a pior saúde cerebral. Já estar sentado durante o trabalho não mostrou a mesma relação.
A distinção surpreendeu a equipa. Considerar apenas o número de horas numa cadeira, por si só, revelou-se pouco informativo sobre a saúde do cérebro no futuro.
David Raichlen, professor de Ciências Biológicas e Antropologia na University of Southern California (USC) e autor sénior do estudo, sublinha essa mudança de foco.
“Durante anos, temos-nos concentrado em quanto tempo as pessoas ficam sentadas. Os nossos resultados sugerem que também devemos prestar atenção ao que estão a fazer enquanto estão sentadas”, afirmou Raichlen.
Hábitos de estilo de vida e saúde do cérebro
Os dados analisados vieram do estudo Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC), um projecto de longa duração nos Estados Unidos dedicado à saúde do coração e do cérebro.
O ARIC acompanha adultos em quatro comunidades norte-americanas desde o final da década de 1980. Grande parte do financiamento provém dos National Institutes of Health (NIH).
Os participantes entraram no estudo com uma idade média de 53 anos. As imagiologias cerebrais foram realizadas cerca de 23 anos depois, quando a maioria já estava na casa dos 70 anos.
Entre as perguntas, uma avaliava com que frequência viam televisão no tempo livre - de “nunca” a “muito frequentemente”.
Outra questionava quanto do dia de trabalho era passado sentado.
Televisão e redução do volume cerebral
Entre os que viam televisão muito frequentemente - cerca de 1 em cada 20 adultos - surgiu um padrão claro: várias regiões do cérebro apresentaram menor volume do que nas pessoas que raramente viam.
Os lobos frontal e occipital estavam reduzidos. Estas áreas estão envolvidas no planeamento, no movimento e na visão.
Também se observou menor volume em regiões que tendem a alterar-se cedo na doença de Alzheimer. Um tamanho mais pequeno nesses pontos associados à memória pode funcionar como um sinal precoce de declínio.
Este padrão manteve-se depois de a equipa ter considerado factores como exercício, peso, tabagismo, consumo de álcool e diabetes. Ou seja, uma pior saúde geral não explicava, por si só, a redução observada.
Sinais de lesão nos vasos sanguíneos
Quem via televisão com muita frequência apresentava ainda mais hiperintensidades da substância branca. Estas zonas brilhantes nos exames sinalizam dano nos pequenos vasos sanguíneos do cérebro.
Há boas razões para os médicos lhes darem atenção: associam-se a maior risco de AVC, declínio cognitivo mais rápido e maior probabilidade de demência.
A frequência de ver televisão foi o preditor mais forte, isoladamente, deste tipo de lesão. O tempo sentado no trabalho não mostrou qualquer ligação semelhante.
A associação manteve-se mesmo quando foram excluídas pessoas com historial de AVC ou doença vascular. O tempo de televisão continuou a destacar-se como o provável factor determinante.
Estar sentado no trabalho pareceu protector
No caso do trabalho de secretária, o sentido foi o oposto. Quem passava mais tempo sentado no trabalho tendia a apresentar lobos frontal, occipital e parietal maiores.
Além disso, tinha menos dessas áreas de risco na substância branca. Em comparação com os grandes consumidores de televisão, os seus cérebros pareciam mais saudáveis.
Uma região em particular sobressaiu: o pólo frontal, que tem um papel importante no planeamento, na tomada de decisões e no pensamento abstracto.
Os autores apontam para a natureza de muitos trabalhos feitos sentados. Ler e resolver problemas mantém a mente activa, mesmo quando o corpo está imóvel.
O esforço cognitivo pode ajudar
O contraste sugere uma ideia simples: para o cérebro, a imobilidade poderá não ser o verdadeiro problema.
O tempo de ecrã passivo quase não exige esforço mental. Já uma tarefa exigente ao computador pode manter o cérebro a trabalhar intensamente durante horas.
Ainda assim, passar longos períodos sentado traz riscos próprios. Intervalos prolongados e sem pausas podem reduzir o fluxo sanguíneo para o cérebro, mesmo durante actividades mentalmente exigentes.
“Frequentemente, encorajamos o público a não passar demasiado tempo sentado, mas os especialistas podem querer alargar essa recomendação para abranger as actividades realizadas enquanto se está sentado, já que estas parecem ter impactos distintos na saúde do cérebro”, afirmou o co-autor do estudo Natan Feter.
O cérebro dos homens foi o que mais mudou
Os resultados dividiram-se de forma marcada por sexo. Quase todas as diferenças cerebrais apareceram nos homens, e não nas mulheres.
Isto foi verdade tanto para o hábito de ver televisão como para o tempo sentado no trabalho. Nas mulheres, nenhum dos comportamentos mostrou uma relação clara com a estrutura cerebral.
Trabalho recente oferece uma possível pista: muitas mulheres tendem a sentar-se em períodos mais curtos e interrompidos ao longo do dia.
Os homens, por sua vez, costumam permanecer sentados durante blocos mais longos e contínuos. Essa diferença no padrão de estar sentado pode ser parte da explicação.
A testar a ligação
A equipa testou os resultados por várias vias e o padrão manteve-se.
Mesmo ao excluir pessoas com problemas ligeiros de memória, ver televisão com frequência continuou ligado a um cérebro mais pequeno e com mais danos.
O ajuste para um gene associado ao risco de Alzheimer quase não alterou os resultados.
Os investigadores voltaram a verificar a análise usando hábitos reportados ao longo de várias visitas ao longo dos anos. As conclusões ficaram muito semelhantes às anteriores.
O que isto significa daqui para a frente
O estudo não consegue provar que a televisão prejudica o cérebro. Os hábitos foram auto-reportados e não medidos com um dispositivo.
Também não existia um exame de referência feito na meia-idade. Assim, as mudanças ao longo dos anos continuam, por agora, fora do alcance.
Ainda assim, a direcção dos resultados é difícil de ignorar: pode importar menos a cadeira e mais o que preenche o tempo passado nela.
No futuro, os médicos poderão ajustar o aconselhamento. Mover-se mais, sim - mas também trocar parte do tempo de ecrã passivo por actividades que obriguem a mente a trabalhar.
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