O wi-fi nunca falha quando não estás a fazer nada. Falha quando o teu chefe diz: “Podes partilhar o ecrã?” ou quando o teu adolescente está a meio de uma discussão no FaceTime e a imagem fica congelada no pior ângulo possível. Aparece a roda giratória da desgraça, a videochamada começa a estalar como um rádio antigo e, algures na casa, alguém grita: “QUEM É QUE ESTÁ A SACAR ALGUMA COISA?” Tu encaras as luzes do router, como se estivessem a fazer isto de propósito. Andas com o telemóvel de um lado para o outro como se estivesses a tentar apanhar borboletas. Nada.
Depois, um amigo manda uma daquelas bombas com ar descontraído, a meio de um café: “Sabes aquele aquário grande ao lado do router? Pois… isso é basicamente um buraco negro para o wi-fi.” Segue-se silêncio e, logo a seguir, aquela sensação afundada - e um bocado ridícula - de perceberes que os teus peixes-anjo andaram a sabotar a tua internet. E a coisa ainda fica mais estranha: o micro-ondas também pode estar metido nisto.
A noite em que o meu wi-fi morreu ao lado dos peixes
A primeira vez que ouvi dizer que a água mata o wi-fi, ri-me. Até me lembrar de onde tinha colocado o router: mesmo ao lado de um aquário enorme e vibrante na sala, cheio de néons tranquilos e com um gato extremamente julgador a observá-los. O router estava certinho em cima do móvel, escondido atrás de uma planta de plástico - tudo muito “Instagramável”, muito “pouca tecnologia à vista, muita vibe”. E, afinal, isso também explicava porque é que o sinal parecia desaparecer sempre que eu levava o portátil para a ponta mais distante da casa.
Toda a gente já passou por aquele momento em que culpas a operadora, o portátil, até o tempo… e nem uma vez te ocorre pensar: “Se calhar o Dave, o peixe-dourado, é que está a causar isto.” Eu, pelo menos, não pensei. Liguei para a operadora, reiniciei o router todos os dias, ameacei mudar de empresa, fiz tudo o que se faz. Mesmo assim, quando o wi-fi finalmente chegava ao quarto, vinha a arrastar-se como se tivesse acabado de correr uma maratona de chinelos.
Depois, um amigo engenheiro de redes veio cá a casa, ouviu-me reclamar durante dez minutos e apontou, sem drama, para o tanque de vidro. “Basicamente, embrulhaste o sinal numa poça de água”, disse ele. Não era figura de estilo. Era literal. E eu fiz a experiência mais simples da minha vida adulta: afastei o router 2 metros do aquário. O resultado do teste de velocidade quase me deixou ofendido, de tão fácil que foi.
Porque é que o teu aquário devora o teu wi-fi
A verdade, sem glamour, é esta: o wi-fi são ondas de rádio numa frequência que o teu telemóvel consegue entender. Essas ondas atravessam o ar sem grande dificuldade, mas grandes quantidades de água absorvem-nas e espalham-nas - como tentar apontar uma lanterna através de nevoeiro espesso. Um aquário grande, ou até vários pequenos, funciona como uma esponja silenciosa e brilhante que te “chupa” o sinal. Não parece ameaçador, porque está cheio de bolhas relaxantes e castelos decorativos, mas consegue mesmo abafar essas ondas delicadas.
É por isso que podes notar o sinal a cair quanto mais te afastas para trás ou para o lado do tanque, mesmo estando, teoricamente, “dentro do alcance”. O router acha que está a emitir com orgulho para a casa toda. Na prática, metade da energia está a ser engolida por vários litros de água e a outra parte fica a ricochetear no vidro. O teu wi-fi não está a morrer. Está só a afogar-se, devagar, atrás dos peixes.
Água, paredes e aquele “buraco” estranho nas escadas
Quando começas a olhar para a água como inimiga do wi-fi, muita coisa passa a fazer sentido. Aquele ponto morto junto à casa de banho? Uma parede cheia de canalização e um duche grande, com azulejos e humidade, podem ter uma palavra a dizer. A quebra repentina quando passas para trás da parede da cozinha? É bem possível que haja uma caldeira ou um depósito ali perto, a cortar discretamente uma fatia da cobertura. O sinal até atravessa estuque e madeira com algum esforço, mas tudo o que contém água “bebe” uma boa parte antes de ela chegar a ti.
A maioria de nós nem pensa nisto. Aceitamos que o patamar das escadas “não é grande coisa para o Zoom” ou que temos de ficar encostados à porta do quarto para ver Netflix sem interrupções. Quando percebes que, sem querer, montaste uma pista de obstáculos de água e metal entre o router e os teus equipamentos, a coisa deixa de parecer misteriosa e começa a ser… resolúvel. Os deuses da internet não estão zangados. É a tua planta da casa que é assim.
O micro-ondas que rebenta com a tua festa dos 2.4 GHz
Se a água está a sufocar o teu wi-fi em silêncio, o micro-ondas é o vizinho barulhento que entra a estragar a festa. Não se limita a bloquear: compete. A maioria das redes wi-fi domésticas usa 2.4 GHz, o que soa perigosamente perto da banda de 2.45 GHz em que a maioria dos micro-ondas trabalha. Aquele “bzzzz” quando aqueces o caril de ontem? É uma tempestade de ruído electromagnético mesmo ao lado do teu sinal.
Dá para ver isto a acontecer, ao vivo. Pões o router perto do micro-ondas, começas a ver um vídeo no telemóvel e, depois, ligas o micro-ondas. Muitas vezes aparecem pixels, buffering ou a mensagem fantasma de “ligação fraca”, mesmo sem te mexeres. O micro-ondas está, literalmente, a gritar por cima do teu wi-fi sempre que funciona. É como pedir a alguém que sussurre indicações no meio de um concerto de rock.
Aquela chamada congelada à hora de almoço
Há sempre aquela pessoa numa chamada de trabalho cuja imagem morre precisamente às 12:30. Sabes qual é: ligação perfeita de manhã e, de repente, a cara fica congelada enquanto diz, “Então, os números-chave são-” e o som desaparece. Tu imaginas o router a lutar contra nuvens de tempestade. Na realidade, alguém na cozinha acabou de meter uma refeição pronta no micro-ondas mesmo ao lado do router.
Sejamos sinceros: ninguém se lembra disto no dia a dia. Enfiamos routers ao lado de extensões, atrás de chaleiras, debaixo de fruteiras de metal. Depois perguntamo-nos porque é que a ligação anda instável. O almoço aquece, o micro-ondas lança interferência, e a tua chamada importante com um cliente vira uma apresentação de diapositivos. A tecnologia não está avariada. A colocação é que é um bocadinho caótica.
Metal: o escudo silencioso de wi-fi pela casa
Se a água “bebe” o wi-fi e o micro-ondas berra por cima dele, o metal pura e simplesmente corta caminho. Superfícies metálicas reflectem e absorvem ondas de rádio, por isso funcionam como espelhos e paredes ao mesmo tempo. Um móvel de TV em metal, um frigorífico grande, radiadores, até reforços metálicos em certas paredes podem comportar-se como escudos invisíveis. O router faz o seu trabalho e dispara ondas, mas uma parte considerável bate nestes obstáculos brilhantes, volta para trás e fica a circular sem utilidade.
Pensa em quantos routers ficam discretamente sufocados atrás da televisão, enfiados dentro de um armário multimédia metálico só para “não se verem os cabos”. Ou pousados em cima de um grande armário de arquivo metálico num escritório em casa. Fica arrumado, sim, mas o sinal está a travar uma guerra perdida. O teu telemóvel, duas divisões adiante, recebe apenas a energia que consegue contornar as margens deste circuito de obstáculos doméstico.
E depois há aqueles bolsos esquisitos de sinal óptimo e péssimo no mesmo espaço. Estás em frente ao radiador e o wi-fi perde uma barra; dás um passo para o lado e, de repente, voa. É a coreografia das reflexões, refracções e absorções a saltitar no meio de uma casa cheia de metal. A ciência até é gira. A experiência de utilização é irritante.
A mudança de 5 minutos do router que parece magia
Aqui é que a coisa fica estranhamente satisfatória. Nem sempre precisas de mudar de operadora ou de comprar logo um sistema mesh caro. Às vezes basta pegares no aparelho e mudá-lo de lugar. Coloca o router o mais ao centro possível, mais elevado do chão e longe de grandes massas de água ou metal. Ou seja: não em cima do móvel do aquário, não debaixo da TV, não pousado no micro-ondas, e não enterrado num armário com uma porta metálica.
Uma amiga jura que duplicou o alcance útil do wi-fi ao tirar o router debaixo da televisão e colocá-lo no topo de uma estante de madeira. Mesma casa, o mesmo pacote de internet, os mesmos dispositivos. Só havia menos coisas a bloquear. Ela descreveu como “tirar algodão dos ouvidos”. De repente, o sinal chegava ao quarto sem ter de se agarrar à vida.
Regra prática forte: dá espaço ao router para “respirar”. Pensa em linha de vista, mesmo que existam paredes pelo meio. Imagina que és o sinal, a tentar sair daquela divisão para o resto da casa. Se tu, a andar, ias bater num tanque, num frigorífico, numa caldeira ou num roupeiro cheio de toalhas húmidas, o sinal provavelmente também. Então ajustas um pouco. Às vezes é só isso.
Os pequenos truques nerds que ajudam mesmo
Depois de tirares o router da zona de perigo do aquário e do micro-ondas, há mais alguns ajustes discretos que deixam tudo mais estável. A maioria dos routers actuais emite em duas bandas: 2.4 GHz e 5 GHz. A banda de 2.4 GHz vai mais longe e contorna objectos com um pouco mais de facilidade, mas está mais congestionada e leva com o bullying dos micro-ondas e de dispositivos mais antigos. A banda de 5 GHz é mais rápida e limpa, mas não gosta tanto de paredes grossas.
Se o teu router permitir, garante que as duas estão activas e com nomes claros, para perceberes qual é qual. Podes pôr o telemóvel a usar 5 GHz quando estás perto do router e deixar tomadas inteligentes ou equipamentos mais antigos “acampar” nos 2.4 GHz. Só isso já reduz a confusão. E se vives num prédio e o teu edifício é uma lista interminável de redes “BT-XXXX”, mudar o canal do wi-fi pode aliviar o engarrafamento digital. É uma alteração pequena no painel de administração que, por vezes, num serão mais concorrido, parece enorme.
Nada disto é glamoroso. Não há aquela emoção de abrir uma caixa de hardware novo. Apenas inclinas, em silêncio, as probabilidades a teu favor. E numa terça-feira cinzenta, quando a chamada não cai enquanto o vizinho aquece a refeição pronta, isso sabe a luxo.
Viver com o wi-fi como se fizesse parte da mobília
O wi-fi já foi uma funcionalidade especial. Hoje é só mais uma coisa, como água canalizada ou o zumbido baixo do frigorífico à noite. Quase não pensamos em como funciona até ao momento em que falha. Aí amaldiçoamos, reclamamos com a operadora, reiniciamos tudo o que apanhamos pela frente e prometemos que “este fim de semana vamos tratar da internet a sério”. Raramente tratamos.
A verdade é que o teu sinal está apenas a tentar sobreviver às escolhas que fizeste para o teu espaço. Quiseste o aquário na sala, o router escondido, os gadgets da cozinha todos alinhados e bonitos. Nada disso é errado. Só que altera os caminhos invisíveis por onde o wi-fi tenta passar. Quando olhas para isto assim, afastar o router do aquário deixa de parecer uma “correcção tecnológica” e passa a ser mais como reorganizar a casa para toda a gente conseguir respirar.
Da próxima vez que a videochamada congelar e sentires aquele calor familiar a subir, olha à tua volta. Procura o vidro, a água, o metal, o micro-ondas a zumbir. Pensa no teu pobre sinal, a embater em cada parede, painel e tanque no caminho até ao teu telemóvel. Depois pega no router, muda-o alguns passos e vê o que acontece. Os peixes-anjo hão-de perdoar. O teu wi-fi talvez te agradeça. E aquela roda giratória da desgraça pode finalmente reformar-se para onde realmente pertence: para a casa de outra pessoa.
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