“Microcimento, outra vez?” suspirou ele, olhando para o casal no meio de uma sala a meio demolida. Eles hesitaram. No ano passado, teriam respondido que sim sem pensar duas vezes. Desta vez, trocaram um olhar e pegaram nos telemóveis. Nos dois ecrãs: exactamente o mesmo. Novos projectos. Novos acabamentos. Uma nova palavra da moda. Tadelakt.
Já era a terceira vez que ouvia o termo só esta semana. De clientes que queriam uma casa de banho “como um spa boutique em Marraquexe”. De uma arquitecta que, discretamente, tinha riscado o microcimento do seu quadro de materiais. De uma loja de azulejos que acabara de ampliar a zona dedicada a “rebocos à base de cal”.
Havia ali qualquer coisa a mudar. O microcimento começava a soar… a anos 2020. E, sem grande alarido, um rival mais macio e sensorial estava a ocupar o seu lugar.
Porque o microcimento está a perder força - e o que o está a substituir
Passe por um showroom com curadoria de design hoje e percebe-se a tendência antes mesmo de a conseguir explicar. Vê-se menos cubos de microcimento absolutamente planos, ligeiramente frios. E mais paredes aveludadas, suaves, com um brilho contido - como pedra polida por mil toques.
Os vendedores trazem um novo vocabulário: reboco de cal, tadelakt, acabamento de argila, revestimento mineral. As superfícies deixam de parecer um “loft de Instagram” e aproximam-se mais de um hotel boutique num edifício com 300 anos. A moda está a deslocar-se de cascas rígidas e monolíticas para acabamentos que assumem vida e pequenas imperfeições.
O recado dos clientes é directo: estão fartos de materiais que parecem ecrãs.
E, quando se pergunta a quem está a remodelar porque abandona o microcimento, surgem relatos repetidos. Microfissuras junto ao nicho do duche. Kits de retoque sem fim para lascas nas ilhas de cozinha. Pavimentos que nas fotografias pareciam “cool”, mas que, no dia-a-dia, transmitiam uma sensação estranhamente clínica.
Um casal de Londres contou-me que se apaixonou pelo microcimento no Pinterest e depois passou dois Invernos a andar em bicos de pés sobre um chão frio, com eco, num espaço em open space. Quando voltaram a remodelar, cobriram tudo com um reboco de cal em tons quentes e um selante mate mais suave.
Disseram que os convidados deixaram de comentar o “acabamento moderno” e passaram a dizer: “Aqui dentro sente-se uma calma incrível.” Não foi só a estética que mudou - mudou a forma como as pessoas se comportavam naquele espaço.
E esta viragem não é apenas visual. Tem também a ver com a forma como hoje habitamos a casa. O microcimento vendia a promessa de uma superfície “à prova de tudo”, mas a vida real não é assim: crianças deixam cair brinquedos metálicos, cães derrapam no chão, caril salpica paredes.
Os acabamentos à base de cal e de argila partem do princípio de que viver deixa marcas. Dá para reparar, reencerar, retocar com subtileza. Em vez de perseguirem uma pele eterna e impecável, muitas pessoas preferem superfícies que envelhecem um pouco como o couro.
E há ainda o sussurro que toda a gente ouve: sustentabilidade. Embora os sistemas de microcimento tenham vindo a tornar-se mais “verdes”, os rebocos de cal e de argila trazem uma narrativa romântica e de baixa tecnologia que combina com o espírito de 2025. Aglutinantes naturais. Paredes respiráveis. Menos brilho plástico, mais profundidade mineral.
Conheça o material que está a substituir discretamente o microcimento
A estrela desta revolução silenciosa é um clássico com roupa nova: o reboco de cal ao estilo tadelakt. De origem marroquina e tradicionalmente aplicado em hammams, trata-se de um reboco feito à mão com cal, polido com pedras e depois selado com sabão ou cera. Em 2025, os fabricantes traduziram isso em sistemas mais “amigáveis” para obra, mas a essência mantém-se.
O resultado é suave, quase nebuloso, muitas vezes em tons quentes e delicados. Permite cantos arredondados, nichos curvos e até lavatórios esculpidos numa única continuidade. Funciona em paredes, no interior de duches, em frentes de móveis de lavatório e, por vezes, até em banheiras.
No Instagram, lê-se como “minimalismo de spa”. Ao vivo, surpreende por ser humano: pequenas ondulações, variações subtis de cor, uma superfície que apetece tocar com a palma da mão, não apenas ver.
Os designers estão a aplicar tadelakt e outros rebocos minerais precisamente nos pontos onde o microcimento reinava: duches ao nível do chão, casas de banho com linguagem de hotel, credências de cozinha em open space. Só que a atmosfera é outra.
Num apartamento em Paris que visitei, o proprietário trocou uma casa de banho em microcimento cinzento por um reboco de cal em tom areia quente. A planta era a mesma. O vidro do resguardo, igual. As torneiras pretas, também. Ainda assim, a energia do espaço transformou-se por completo: menos “loja-conceito”, mais “domingo de manhã”.
E não é preciso fazer tudo. Uma única parede em tadelakt atrás da cama, ou uma prateleira curva rebocada num corredor, já chega para que o resto da casa pareça pensado - e não excessivamente desenhado.
O que realmente empurra esta mudança é a forma como estes acabamentos antigos-novos juntam estilo e bem-estar. Depois de anos de cinzentos frios e superfícies brilhantes, as pessoas procuram calor, uma acústica que suavize o dia e divisões que não “encarem” de volta como um ecrã.
Os rebocos de cal difundem naturalmente a luz: uma sala virada a sul deixa de parecer um showroom e passa a parecer habitada. E combinam com a paleta terrosa que está por todo o lado: cogumelo, aveia, terracota, pedra.
O microcimento não ficou, de repente, “mau”. Simplesmente deixou de ser a resposta automática. Estamos a entrar numa fase em que textura, tactilidade e luxo discreto ganham à uniformidade polida. E o tadelakt - ou os seus primos minerais contemporâneos - encaixa nesse guião com uma perfeição quase suspeita.
Como trocar o microcimento por acabamentos ao estilo tadelakt em casa
Se está a planear uma remodelação em 2025 e tinha o microcimento guardado como opção óbvia, o primeiro passo prático é simples: repensar a sua “superfície protagonista”. Em vez de perguntar “Onde é que consigo aplicar microcimento em todo o lado?”, pergunte “Onde é que eu quero, de facto, uma textura calma e tocável?”
Escolha um ou dois pontos de destaque. Um duche. Uma credência de cozinha. Uma parede de acento que continua até um banco junto à janela. O tadelakt adora curvas e cantos, por isso vale a pena considerar arredondar vãos de janela ou suavizar uma divisória mais agressiva.
Segundo passo: encontrar alguém que conheça mesmo o material. Peça fotografias de obras com, pelo menos, um ano de uso - não apenas instalações acabadas de fazer. O que interessa é ver como aguenta duches diários, marcas de sabão e o ocasional choque de um frasco de champô.
Há uma curva de aprendizagem nestes acabamentos, e é aí que as expectativas muitas vezes colidem. As pessoas vêem imagens bonitas e imaginam uma superfície mágica, sem manutenção. Na prática, exige cuidados - como umas boas botas de couro.
Isso não implica rituais diários. Sejamos honestos: ninguém faz mesmo isso todos os dias. O que significa é limpeza suave, reencerar ou voltar a selar de tempos a tempos, e aceitar pequenas marcas como parte do encanto.
Se essa ideia o deixa ansioso, comece numa zona de baixo risco: atrás da cabeceira, num canto de leitura, à volta de um nicho decorativo. Depois de viver com a pátina e gostar, será mais fácil usar em casas de banho e cozinhas.
Um estucador com quem falei resumiu assim:
“O microcimento tentou ser perfeito. O tadelakt é mais honesto. Se quer uma casa de banho que nunca mude, escolha azulejo. Se quer um espaço que cresça consigo, escolha reboco.”
Essa mudança de mentalidade é decisiva. Não está a comprar uma pele eternamente impecável; está a trazer um material vivo para dentro de casa.
- Comece pequeno: experimente numa casa de banho social ou numa só parede antes de comprometer a casa toda.
- Planeie a iluminação: luz rasante e iluminação lateral suave valorizam os acabamentos minerais e tornam-nos mais sofisticados.
- Evite produtos agressivos: sabão neutro e panos macios são os melhores aliados.
- Fale de orçamento cedo: a aplicação por mãos experientes custa mais no início do que tinta básica ou azulejo.
Quando se aceita essa troca, o material deixa de parecer assustador e começa a soar, estranhamente, libertador.
O que esta mudança diz sobre a forma como vamos viver em casa depois de 2025
O adeus lento ao microcimento e a ascensão dos acabamentos ao estilo tadelakt não é apenas uma micro-tendência de design. É um sinal do que estamos a pedir às casas depois de uma década de vidro, ecrãs e luminosidade constante.
Estamos a sair da estética de “casa-modelo” e a caminhar para espaços que nos perdoam. Superfícies que não exigem que vivamos como stylists. Numa terça-feira à noite, com roupa em cima da cadeira e brinquedos debaixo do sofá, isso pesa mais do que qualquer painel de Pinterest.
Num nível mais profundo, há qualquer coisa de reconfortante numa parede que muda ligeiramente sempre que a luz passa por cima dela. Lembra-nos que o tempo avança e que uma casa não fica congelada no instante em que foi fotografada para um anúncio.
Entre num espaço revestido com um reboco mineral macio e as pessoas, instintivamente, falam mais baixo. As reuniões parecem menos cortantes. As discussões esvaziam-se mais depressa. Pode soar poético, mas quem já esteve numa “câmara de eco” de azulejo sabe como o som molda o humor.
Todos já vivemos aquele momento em que um quarto de hotel nos acalma sem conseguirmos apontar uma peça de mobiliário responsável por isso. Muitas vezes, são as superfícies que estão a fazer esse trabalho silencioso.
Talvez essa seja a verdadeira história: não a queda do microcimento, nem o regresso da cal, mas a consciência de que o que temos nas paredes e no chão pode lutar contra nós - ou apoiar-nos. O microcimento teve o seu tempo e deu-nos espaços limpos e cinematográficos. Agora, o pêndulo volta para acabamentos que perdoam, suavizam e envelhecem connosco.
Daqui a alguns anos, talvez olhemos para as intermináveis caixas cinzentas de microcimento como hoje olhamos para as casas de banho abacate dos anos 70: uma era, um mood, uma fase. O que as substituirá não será apenas “mais bonito”. Será mais humano.
| Ponto-chave | Detalhe | Interesse para o leitor |
|---|---|---|
| O microcimento está a perder a coroa | Proprietários relatam fissuras, frieza e um aspecto clínico que em 2025 já parece datado | Ajuda a evitar investir num acabamento que já está a perder força |
| O reboco de cal ao estilo tadelakt está a subir | Superfícies minerais suaves e tácteis usadas em duches, cozinhas e paredes de destaque | Oferece uma alternativa clara, alinhada com as tendências actuais de design e bem-estar |
| Mudança de mentalidade: do impecável para o “vivo” | Novos acabamentos valorizam pátina, cuidados suaves e textura visível | Permite desenhar uma casa mais calma, mais quente e mais fácil de habitar |
Perguntas frequentes:
- O microcimento está mesmo “acabado” ou ainda vale a pena? Não desapareceu; apenas deixou de ser a opção padrão. Continua a fazer sentido nalguns contextos, sobretudo em ambientes muito minimalistas e industriais, mas já não acompanha a direcção mais quente e suave que muitas casas estão a seguir.
- O tadelakt pode ser usado com segurança num duche ou numa zona húmida? Sim, desde que seja aplicado correctamente por um instalador treinado e que tenha manutenção regular com as ceras ou selantes adequados. O sistema por trás (base impermeabilizada, membranas) é tão importante quanto o reboco final.
- O reboco de cal é mais caro do que o microcimento? Muitas vezes, o custo do material é semelhante, mas o tadelakt verdadeiro e os rebocos minerais de gama alta podem exigir mais mão-de-obra, pelo que se paga o trabalho artesanal. Começar por uma área pequena é uma boa forma de controlar o orçamento.
- Estes novos acabamentos vão fissurar como o microcimento por vezes fissura? Qualquer superfície rígida pode fissurar se a base se mexer, mas os rebocos de cal tendem a ser mais tolerantes. Uma boa preparação, suportes estáveis e profissionais experientes reduzem bastante o risco.
- Posso fazer tadelakt ou reboco mineral em modo DIY? Algumas marcas têm versões mais acessíveis para DIY, mas o tadelakt clássico, polido e resistente à água numa casa de banho, é normalmente trabalho para profissionais. Se quiser experimentar, comece numa zona decorativa sem contacto directo com água.
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