Os ovos são sempre motivo de polémica e o chocolate costuma dividir opiniões lá em casa. Entre abacates e limões, entre pão e polpa de tomate, repete-se a mesma dúvida: fica melhor no frigorífico ou no armário? Paula Teixeira, docente na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica e investigadora em segurança alimentar, ajuda a esclarecer.
Manteiga
A manteiga é, essencialmente, uma gordura e, quando exposta ao calor, tende a ficar rançosa. Por isso, explica Paula Teixeira, deve ser guardada no frigorífico - tanto por qualidade (porque o calor altera a cor e o sabor) como por segurança. "Não é muito comum, mas já houve infeções graves por listeria detetada na manteiga." Se o problema é a manteiga ficar demasiado dura para barrar, a solução passa por retirá-la do frigorífico algum tempo antes de a usar.
Já a manteiga de amendoim pode, regra geral, ficar à temperatura ambiente, desde que seja mantida num local fresco e seco - exceto se o rótulo indicar que deve ser guardada no frigorífico.
Ovos
Este é um dos temas mais debatidos. A partir do momento em que são comprados e trazidos para casa, os ovos devem ir para o frigorífico - não tanto por segurança, mas por qualidade. Paula Teixeira descreve o que muda com o tempo: "O que é que acontece a um ovo à medida que vai envelhecendo? A clara fica mais líquida, perde viscosidade. Aquela membrana que envolve a gema também fica mais frágil, por isso é que quando partimos um ovo velho, ele desfaz-se e a gema entra pela clara. Estes processos de envelhecimento acontecem tanto mais rápido quando mais alta é a temperatura". Ou seja, o frio ajuda a manter o ovo, durante mais tempo, com a textura que preferimos.
Ainda assim, não é uma questão de segurança alimentar, porque "se o ovo tiver salmonela, antes de chegarmos a pô-lo no frigorífico, já ela teve mais do que tempo para se multiplicar". Há, no entanto, uma regra fundamental: os ovos devem ser colocados no interior do frigorífico, e não na porta. "Sempre que abrimos a porta, há mudanças de temperatura, que criam condensação, geram gotas de água à superfície, e como a casca do ovo é porosa, há microorganismos, inclusive salmonela, que podem estar na casca e que entram no ovo."
É precisamente para evitar oscilações de temperatura durante o trajeto do supermercado até casa que, nas lojas, os ovos costumam estar à temperatura ambiente. Depois de chegar a casa, devem manter-se refrigerados até à utilização.
Pão
Aqui, a questão é sobretudo de qualidade. No armário, o pão ganha bolor rapidamente. No frigorífico, aguenta mais tempo, mas seca e endurece. "O ideal mesmo é congelar quando está fresquinho e ir descongelando à medida que se vai precisando", recomenda Paula Teixeira.
Tomates e cebolas
Os tomates não são obrigados a ir para o frigorífico, embora a refrigeração ajude a prolongar a conservação. As cebolas, por sua vez, devem ficar à temperatura ambiente. A exceção é quando se utiliza apenas metade: nesse caso, a parte restante deve ser guardada no frigorífico. "Mas devemos usá-la rapidamente, porque mesmo no frigorífico degrada rapidamente, fica molenga", alerta a engenheira alimentar.
Melão, meloa e melancia
Algumas frutas, depois de cortadas, têm mesmo de ser refrigeradas - e é o caso das meloas, melancias e melões. Enquanto estão inteiros, podem ficar na fruteira à temperatura ambiente (sabendo-se que, assim, amadurecem mais depressa). "Mas depois de partidos, é obrigatório irem para o frigorífico. Mais até do que outras frutas. Porquê? Porque não são ácidas e têm um PH alto. Uma laranja aberta ou um ananás, como são ácidos, a maior parte das bactérias não consegue crescer. Já na família dos melões, tem tudo para crescer. E rapidamente", sublinha Paula Teixeira.
Para contrariar - ou, pelo menos, reduzir - este risco, a resposta é simples: frigorífico, seja no verão ou no inverno. "Claro que uma melancia grande, depois de partida, ocupa imenso espaço no frigorífico. Para resolver, o ideal é partir aos pedacinhos."
Morangos e mirtilos
Morangos e mirtilos devem ir para o frigorífico. "Deixar uma caixa de morangos à temperatura ambiente é correr o risco de ganharem bolor e basta um ter que propaga-se pelo resto. O frigorífico é a melhor solução", refere a docente da Universidade Católica.
Os morangos são descritos como uma fruta "muito sensível" e a melhor estratégia é "comprar à medida das necessidades, porque, mesmo estando no frigorífico, aguentam muito pouco tempo". Os mirtilos toleram melhor o tempo, mas a refrigeração também ajuda a manter a frescura e a diminuir a probabilidade de bolor.
Abacates
Antes de abrir, o abacate deve ficar à temperatura ambiente para amadurecer. Se já estiver no ponto, colocá-lo no frigorífico ajuda a travar o amadurecimento demasiado rápido. Depois de aberto, também deve ir para o frigorífico, mas é aconselhável consumi-lo de um dia para o outro. "Mais do que isso, vai escurecer", avisa a investigadora em segurança alimentar. "É um fruto chato, porque num dia está verde, no outro está maduro demais."
Limão
Aqui mantém-se a regra geral aplicada à fruta: inteiro, pode ficar fora do frigorífico; depois de cortado, Paula Teixeira recomenda que "embrulha-se em película e guarda-se no frigorífico". Em termos gerais - com exceções como os morangos - "os frutos aguentam bem fora do frigorífico antes de encetados".
Da maionese à polpa de tomate
Nos molhos, aplica-se uma regra simples e essencial: depois de abertos, devem ir sempre para o frigorífico. Há, contudo, um pormenor que faz diferença: convém respeitar o prazo indicado pelo fabricante. "Às vezes, as pessoas deixam estes produtos muito tempo no frigorífico e importa ver o que diz o fabricante no rótulo. Se diz que, depois de aberto, conserva-se durante três dias no frigorífico, são três dias. Claro que em alguns produtos temos uma margem, sobretudo se disser "consumir de preferência antes de", mas há que ter cuidados", sublinha Paula Teixeira.
Para frascos de polpa de tomate, a engenheira alimentar deixa uma sugestão prática: guardar a embalagem invertida. "Começam a ganhar bolor em cima e se os virarmos ao contrário isso já não acontece, porque os bolores precisam de oxigénio. Se o molho ficar encostado à tampa, os bolores vão ter dificuldade em crescer. A regra serve para todos os molhos, embora muitas embalagens já sejam assim."
Compotas, mel e marmelada
As compotas, depois de abertas, devem ir para o frigorífico. "Muitas não precisam, é certo, porque o teor de açúcar é tanto que funciona como uma barreira anti-microbiana. Mas como têm cada vez menos açúcar, depois de abertas, devem mesmo ir para o frigorífico", explica a engenheira alimentar.
Nestes casos, seguir as indicações do rótulo é uma ajuda importante. E, tal como nos molhos, também aqui pode ser útil guardar a embalagem virada ao contrário, para dificultar o desenvolvimento de fungos e bolores pela ausência de oxigénio. Já no caso do mel, a refrigeração não faz sentido. A marmelada, por outro lado, beneficia de ir para o frigorífico, inclusive para atrasar o aparecimento de bolor.
Chocolate
Não: o chocolate não precisa de ser guardado no frigorífico - a menos que se trate de um molho de chocolate líquido. Fora isso, deve ficar à temperatura ambiente. "O chocolate tem muito açúcar e pouca água, não há condições para o desenvolvimento de microorganismos", garante a docente.
Além disso, o frio tende a deixá-lo mais seco e duro, podendo ainda formar uma película esbranquiçada. "Neste tempo de calor e se a casa estiver muito quente, o frigorífico pode justificar para não derreter, mas não é uma questão de segurança." No caso do chocolate de barrar, como a Nutella, deve cumprir-se exatamente o que estiver indicado pelo fabricante no rótulo.
Sementes e frutos secos
Pode parecer inesperado, mas guardar frutos secos no frigorífico não é assim tão estranho. "Uma forma de prevenir o ranço, o amargo, é colocar as nozes no frigorífico", diz a engenheira alimentar. Não se trata de segurança alimentar, mas sim de preservar o sabor. "Se ficarem muito tempo guardados, pode justificar guardar no frigorífico para prevenir a oxidação." A mesma orientação pode aplicar-se a sementes, como a linhaça.
DICAS DE SEGURANÇA ALIMENTAR
Onde guardar as sobras?
É comum deixar sobras várias horas à temperatura ambiente, muitas vezes em cima do fogão. No entanto, um alimento cozinhado deve entrar no frigorífico, no máximo, ao fim de duas a três horas. Não se deve deixar comida do almoço até ao jantar sem refrigeração, nem deixar o almoço do dia seguinte fora do frigorífico.
E não é apenas uma preocupação com carne, peixe ou ovos: também em arroz e massa pode haver crescimento microbiano. A regra é clara: tudo deve ser refrigerado.
Como descongelar alimentos?
A descongelação deve ser feita no frigorífico. Deixar alimentos a descongelar à temperatura ambiente não é seguro. O mais indicado é retirar do congelador na véspera e colocá-los no frigorífico.
Quando se descongela fora do frio, abre-se sempre a porta ao crescimento de microorganismos. Descongelar no micro-ondas ou em água pode ser uma alternativa, mas implica perda de qualidade.
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