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Saúde cerebral ao longo da vida: a nova declaração científica da Associação Americana do Coração

Mulher a fazer anotações enquanto segura uma taça de fruta, numa cozinha luminosa.

O seu cérebro não faz pausas. Continua a registar, a ajustar-se e a responder a tudo o que lhe acontece.

Uma manhã apressada, uma conversa tensa, uma noite curta ou até a comida que come entre tarefas deixam sempre sinais. Isoladamente, estes momentos parecem insignificantes, mas, em conjunto, acabam por moldar a forma como o cérebro funciona ao longo do tempo.

Uma nova declaração científica da Associação Americana do Coração ajuda a pôr esta realidade em destaque.

A saúde cerebral começa cedo

O documento, liderado pela Dra. Elisabeth Breese Marsh, da Escola de Medicina da Johns Hopkins, descreve a saúde cerebral como algo que se constrói ao longo de toda a vida. Não é um tema que surja apenas na velhice: começa cedo - mesmo antes do nascimento.

“À medida que os avanços médicos e científicos prolongaram a esperança de vida, a saúde cerebral tornou-se cada vez mais importante”, afirmou.

“O número de pessoas com défice cognitivo relacionado com a idade está a aumentar rapidamente, criando encargos significativos a nível pessoal, emocional e para os sistemas de saúde.”

Os riscos clássicos, como a hipertensão e o colesterol elevado, continuam a ter um papel determinante. Não desapareceram. Mas os investigadores estão a olhar para um panorama mais amplo.

Durante muito tempo, a atenção centrou-se sobretudo na tensão arterial e no colesterol; no entanto, a evidência acumulada mostra que o sono, o microbioma intestinal e as condições sociais também influenciam a saúde do cérebro.

O stress altera o cérebro

A depressão e a ansiedade não são apenas estados emocionais. Também se refletem na estrutura cerebral. Períodos prolongados de stress diminuem substâncias protetoras, como a BDNF.

Algumas áreas essenciais do cérebro, como o hipocampo, começam a reduzir de tamanho. Ao mesmo tempo, as ligações entre as células nervosas perdem força.

Quem enfrenta depressão numa fase precoce da vida pode vir a ter um risco mais elevado de demência mais tarde. E estes efeitos podem prolongar-se durante décadas.

A inflamação faz parte do sistema de defesa do organismo. Porém, quando se mantém ativada por demasiado tempo, torna-se prejudicial.

Nessa situação, as células imunitárias do cérebro permanecem num estado de “ataque” e libertam substâncias que lesionam os tecidos próximos.

Este stress contínuo tem sido associado à diminuição de certas regiões cerebrais e a um declínio cognitivo mais rápido. Nas mulheres, o risco pode aumentar após a menopausa, quando os níveis de hormonas com efeito protetor diminuem.

O local onde vive faz diferença

A qualidade do ar tem um impacto direto na saúde cerebral. Partículas finas provenientes do trânsito, de incêndios e da atividade agrícola podem entrar no organismo e desencadear inflamação.

Este mecanismo pode afetar o cérebro e elevar o risco de problemas de memória e de doença de Alzheimer.

A exposição durante a gravidez também pode ter consequências nas crianças. Estudos associam o dióxido de azoto a um desenvolvimento motor inferior.

Este peso recai com maior intensidade sobre comunidades com baixos rendimentos e grupos sub-representados, que muitas vezes residem em zonas mais poluídas.

As experiências na infância também deixam marca na saúde cerebral a longo prazo. O stress repetido nessa fase pode provocar alterações biológicas duradouras.

Esse tipo de stress aumenta o risco de doença cardíaca e de demência no futuro. A escolaridade contribui para o que os cientistas chamam de reserva cognitiva - uma capacidade que permite ao cérebro lidar melhor com danos.

Mas a escolaridade está ligada ao rendimento, às condições de habitação e ao acesso a alimentação saudável. E estes fatores também influenciam a saúde cerebral.

Os micróbios intestinais orientam a atividade cerebral

O intestino e o cérebro comunicam de forma permanente. Triliões de microrganismos no sistema digestivo produzem substâncias capazes de influenciar a atividade cerebral.

Alguns destes compostos ajudam a proteger o cérebro e a reduzir a inflamação.

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados desequilibram este sistema. Esse desequilíbrio tem sido associado a doenças como Alzheimer e doença de Parkinson.

O sono recupera a função cerebral

Dormir não é apenas “descansar”. É o período em que o cérebro elimina resíduos e se reorganiza.

Enquanto dormimos, um mecanismo chamado sistema glinfático remove proteínas nocivas, como a beta-amiloide.

Quando o sono é insuficiente, este processo fica mais lento. Com o tempo, os resíduos acumulam-se. Para apoiar esta limpeza, os adultos precisam de sete a nove horas de sono por noite.

O stress precoce deixa efeitos duradouros

Algumas condições médicas na infância podem interferir com o desenvolvimento do cérebro. A cardiopatia congénita, a anemia falciforme e a doença de moyamoya podem perturbar o crescimento cerebral normal.

Em determinados casos, tratamentos como a hidroxiureia ajudam a reduzir riscos.

A obesidade também entra nesta equação. Está ligada a vários outros fatores de risco, incluindo inflamação e resistência à insulina.

Os hábitos do dia a dia são decisivos

A evidência indica que a saúde cerebral é moldada ao longo de toda a vida e que comportamentos saudáveis podem fazer uma diferença real.

“Abordar fatores modificáveis, como a saúde mental, as exposições ambientais, o sono e as condições sociais, pode apoiar o desenvolvimento do cérebro e um envelhecimento saudável”, disse Marsh.

As recomendações são simples, mas com impacto. Mantenha-se fisicamente ativo, opte por mais alimentos de origem vegetal e inclua alimentos fermentados na alimentação.

Garanta um sono de qualidade todas as noites e fortaleça as relações com os outros. Se o stress se tornar esmagador, procure ajuda o quanto antes.

A saúde cerebral constrói-se ao longo do tempo

A saúde cerebral não é um assunto para pensar apenas mais tarde. É algo que se desenvolve todos os dias, através de pequenas escolhas e dos ambientes onde vivemos.

“Uma das mensagens mais importantes desta declaração científica é que a saúde cerebral é moldada ao longo de toda a vida”, afirmou Marsh.

“O que acontece no início da vida pode ter relevância décadas depois, o que também significa que existem oportunidades em todas as fases para apoiar um envelhecimento cerebral mais saudável.”

Cada momento molda o seu cérebro

Mitchell Elkind, Diretor Científico para a Saúde Cerebral e AVC na Associação Americana do Coração, sublinha que a saúde do cérebro não é algo para se considerar apenas numa fase tardia.

“A saúde cerebral é uma jornada ao longo da vida, influenciada pelo nosso bem-estar mental, pelo ambiente e pelas escolhas de estilo de vida desde a infância até à idade adulta tardia”, afirmou.

“A ciência entusiasmante nesta área recorda-nos que cada etapa da vida oferece uma nova oportunidade para nutrir o nosso cérebro e a nossa mente, apoiando um envelhecimento mais saudável e reduzindo o risco de declínio cognitivo, demência, AVC, depressão e outras perturbações cerebrais.”

Esta ideia aplica-se ao quotidiano de forma muito concreta. O seu cérebro está sempre a adaptar-se, e cada decisão conta. Aquilo que come, o ar que respira, o sono que tem e o stress que carrega vão desenhando o seu futuro.

Talvez não perceba essas mudanças de imediato, mas, com o passar do tempo, elas determinam quão bem o seu cérebro envelhece.

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