Saltar para o conteúdo

Chimpanzés da Floresta de Budongo usam plantas medicinais para tratar feridas

Três chimpanzés sentados numa floresta, dois jovens observam o adulto que segura folhas verdes.

Na Floresta de Budongo, no Uganda, os chimpanzés não se limitam a aguentar o dia a dia. Tratam feridas com plantas, higienizam lesões uns dos outros e até retiram laços das patas ou pulsos dos companheiros.

Estas condutas, descritas num novo estudo, apontam para uma possibilidade marcante: as origens da medicina humana poderão ser mais antigas - e mais partilhadas - do que se supunha.

Elodie Freymann, investigadora da Universidade de Oxford e autora principal do trabalho, considera que estes dados oferecem um novo ângulo sobre a forma como os nossos antepassados poderão ter aprendido a cuidar de feridas.

“Os animais ajudam-se uns aos outros. São capazes de identificar quem precisa de ajuda e depois responder a essas necessidades específicas”, afirmou Freymann.

Como os chimpanzés tratam feridas

Ao longo de oito meses, a equipa acompanhou duas comunidades de chimpanzés em Budongo - Sonso e Waibira. As lesões eram frequentes: desde mordidelas e arranhões até laços potencialmente fatais deixados por humanos.

Só em Sonso, quase 40% dos chimpanzés apresentavam cicatrizes causadas por laços. Durante o período do estudo, Freymann e os colegas registaram 12 ferimentos em Sonso e 5 em Waibira. E o mais relevante é que os animais feridos não se dedicavam apenas ao auto-tratamento: também prestavam cuidados a outros.

Um macho chamado KT conseguiu remover do pulso um laço de nylon. Noutro episódio, um chimpanzé identificado como HW lambeu a ferida de uma fêmea depois de esta ter sido atacada.

Houve ainda um caso em que uma fêmea juvenil mastigou folhas, aplicou-as em toques sobre as feridas da mãe e, de seguida, lambeu os próprios dedos antes de os pressionar contra a zona lesionada.

Este tipo de ajuda não ficou restrito a familiares. Em quatro situações, os chimpanzés prestaram cuidados a indivíduos sem relação de parentesco.

Os chimpanzés reconhecem plantas medicinais

Quando se magoam, os chimpanzés não parecem escolher folhas ao acaso. Pelo contrário, dão sinais de saber que plantas podem favorecer a cicatrização.

A equipa de Freymann registou várias espécies vegetais utilizadas no cuidado de feridas. Por exemplo, Acalypha sp. é conhecida pelas suas propriedades antimicrobianas. Já Pseudospondias microcarpa tem reputação de aliviar a dor e de reduzir a inflamação.

Num dos casos, um chimpanzé mastigou folhas de Acalypha e aplicou a polpa sobre um corte. Noutro, foram usadas folhas de Lasiodiscus pervillei para remover sujidade e sangue.

Um macho juvenil chamado KO chegou mesmo a esmagar a casca do caule de Argomuellera macrophylla e a esfregá-la numa ferida na perna.

O padrão observado é semelhante ao da medicina tradicional africana, na qual estas plantas são usadas para tratar desde infecções cutâneas até problemas digestivos.

“É provável que o nosso ancestral comum partilhado também fosse capaz destes comportamentos de cuidado”, observou Freymann. Se os chimpanzés conseguem identificar plantas úteis para curar feridas, é possível que os humanos antigos tenham aprendido com eles.

O lado social do cuidado

O cuidado pró-social - ajudar outros indivíduos - é pouco comum entre animais não humanos. Ainda assim, os chimpanzés de Budongo demonstraram-no de forma clara.

Durante o estudo, os investigadores documentaram 7 episódios em que um chimpanzé ajudou outro. Em 3 desses casos, quem prestou cuidados não tinha qualquer parentesco com o indivíduo ferido.

Um macho chamado ZG lambeu o sangue de uma ferida numa fêmea depois de esta ter sido atacada por outros chimpanzés.

Noutro episódio, NT, uma fêmea juvenil, observou a mãe a mastigar folhas e a pressioná-las sobre uma ferida. Em seguida, NT repetiu o procedimento, imitando a técnica da mãe.

Para Freymann, isto sugere que os chimpanzés não estão apenas a copiar movimentos: estão a aprender de forma activa.

“A nossa investigação ajuda a esclarecer as raízes evolutivas da medicina humana e dos sistemas de cuidados de saúde”, explicou Freymann.

“Ao documentar como os chimpanzés identificam e utilizam plantas medicinais e prestam cuidados a outros, ganhamos uma visão sobre as bases cognitivas e sociais dos comportamentos humanos de cuidados de saúde.”

Ameaças aos cuidados de saúde dos chimpanzés

Em Budongo, os laços colocados por humanos representam um perigo constante. Quase 40% dos chimpanzés de Sonso exibem marcas deixadas por estas armadilhas.

A equipa de Freymann observou várias remoções de laços: algumas feitas pelo próprio animal e outras com apoio de membros do grupo. Contudo, o risco mantém-se.

Os resultados também indicam que chimpanzés de Budongo, do Gabão e de outras regiões poderão partilhar comportamentos de cuidado semelhantes. Isso pode significar que estas práticas são mais comuns do que pontuais - embora ainda haja muito por esclarecer.

Para Freymann, o alcance do estudo vai além do uso de plantas pelos chimpanzés. A observação de como estes primatas recorrem a vegetais para curar pode orientar a descoberta de novos compostos medicinais.

“Se quisermos concentrar-nos nestes recursos medicinais extraordinários, observar e aprender com os animais é uma forma incrivelmente eficaz de o fazer, desde que seja feito de forma ética e responsável”, disse.

Chimpanzés, humanos e medicina com plantas

O estudo de Freymann obriga-nos a repensar as origens da medicina humana e o papel das plantas medicinais.

Ao ver chimpanzés a mastigar folhas e a aplicá-las sobre feridas, torna-se fácil imaginar humanos antigos a fazer o mesmo. Talvez tenham aprendido com os chimpanzés. Talvez tenham chegado a essas soluções em paralelo.

Os chimpanzés de Budongo não são médicos, mas são curadores. E nos seus gestos podem existir ecos das nossas próprias tradições médicas antigas.

O trabalho de Freymann também nos recorda que uma medicina holística pode ser uma herança partilhada, transmitida por ancestrais que percorriam as florestas muito antes de nós.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário