A procura por vacinas melhores contra a febre da dengue ganhou um rumo diferente depois de novos resultados científicos.
De acordo com a investigação, as pessoas com dengue que tiveram uma doença mais ligeira apresentaram, na pele, respostas imunitárias mais fortes e mais eficazes a eliminar o vírus do que os doentes cuja gravidade exigiu cuidados hospitalares.
Este resultado desloca o foco do desenvolvimento de novas vacinas para o local onde a infeção começa - e onde a proteção poderá ser definida mais cedo.
Provas sob a pele
Em Singapura, os sinais mais nítidos do confronto imunitário com a dengue surgiram na pele, e não no sangue, a partir do fluido recolhido em bolhas cheias de líquido provocadas nos antebraços de voluntários.
Ao trabalhar com amostras emparelhadas de 73 doentes, Laura Rivino, da Universidade de Bristol, observou que as respostas de células T mais intensas se concentravam precisamente nesse local superficial.
Estas células presentes na pele destacavam-se sobretudo na fase da doença em que as defesas do organismo atingiam o pico e mostravam-se mais robustas nas pessoas que não precisaram de internamento.
O padrão não explica, por si só, todas as razões pelas quais a dengue se torna grave, mas restringe de forma clara o território onde as próximas respostas têm maior probabilidade de aparecer.
Porque a pele conta nas vacinas contra a dengue
A infeção por dengue inicia-se na pele - não na corrente sanguínea - quando um mosquito infetado deposita o vírus durante a picada.
As células ali posicionadas conseguem reagir antes de a infeção se disseminar, e entre esses defensores locais encontram-se as células T, glóbulos brancos que identificam alvos infetados.
Durante anos, os testes ao sangue dominaram a investigação em dengue; ainda assim, o sangue pode falhar em captar a batalha que já está a decorrer nos tecidos.
Ao levar a análise para a pele, este novo trabalho alterou o lugar onde os cientistas procuram sinais de proteção.
Células que ficam
Uma parte significativa das células ativadas na pele parecia preparada para aí permanecer entre sete a dez dias após o início da febre.
Os imunologistas chamam a esse conjunto células T de memória residentes no tecido - defensores de longa duração que se mantêm no tecido em vez de recircularem continuamente.
Os marcadores detetados nessas células cutâneas sugeriam que estavam a fixar-se no local ao mesmo tempo que acumulavam proteínas destrutivas, úteis para eliminar células infetadas.
Se as vacinas conseguirem induzir um maior número destas células no local da picada, a proteção contra a dengue poderá arrancar mais depressa no próximo contacto.
Proteção e gravidade
A diferença na proteção tornou-se mais evidente quando os clínicos compararam pessoas que tiveram alta para casa com doentes cuja condição exigiu internamento.
Nessas comparações, as células T CD8+ - células imunitárias que destroem células infetadas - eram mais abundantes na pele e no sangue entre os que foram enviados para casa.
“À medida que a dengue se espalha pelo mundo, há uma necessidade urgente de identificar as respostas imunitárias que protegem contra a infeção e a doença grave”, afirmou a Dra. Rivino.
A análise realizada pela sua equipa não esclarece todas as causas da dengue grave, mas delimita um dos componentes do enigma.
Sinais nas bolhas
O fluido das bolhas dos participantes que regressaram a casa também continha mais citocinas - mensagens químicas que ajudam as células do sistema imunitário a coordenar os ataques.
Entre elas estavam sinais fortemente associados ao crescimento de células T, à memória nos tecidos e ao recrutamento local durante a doença.
Os níveis desses sinais foram mais elevados nas pessoas enviadas para casa, mais baixos nos doentes internados mais tarde e ainda mais baixos nos que foram hospitalizados mais cedo.
Este gradiente fez com que a resposta na pele parecesse menos um efeito colateral e mais um tipo de proteção útil.
Ligação entre sangue e pele
A relação entre pele e sangue não se notou apenas no número de células, mas também nos padrões dos seus recetores.
Em dois doentes, surgiram clonótipos partilhados - células T com o mesmo padrão de recetor - tanto na pele como no sangue.
Os investigadores não conseguiram determinar se esses grupos correspondentes se deslocavam entre compartimentos ou se provinham de um reservatório inicial comum.
Qualquer uma das hipóteses ajuda a explicar porque é que o sangue refletiu parte da resposta cutânea, em vez de contar uma história totalmente independente.
O problema atual das vacinas contra a dengue
Uma estimativa aponta para cerca de 390 milhões de infeções por dengue por ano em todo o mundo, o que mantém enorme o desafio de criar vacinas eficazes.
Atualmente, a única vacina contra a dengue recomendada pela Organização Mundial da Saúde é limitada a crianças dos 6 aos 16 anos, em contextos de elevada transmissão.
“As descobertas podem ter implicações significativas para a vacinação, e induzir células T CD8+ específicas da dengue residentes na pele poderá melhorar a eficácia da vacina”, disse Rivino.
Esta abordagem aponta para vacinas - ou vias de administração - concebidas para formar defensores fortes exatamente no local onde os mosquitos depositam o vírus da dengue.
Um indício anterior: o regresso da pele na dengue
Esta pista não surgiu do nada, porque trabalhos anteriores já tinham sugerido que algumas células de combate à dengue estavam associadas à pele.
Em 2015, o grupo de Rivino identificou um marcador de superfície direcionado para a pele em células T específicas da dengue no sangue.
O novo estudo coloca essas células dentro da própria pele, onde parecem ativas, numerosas e associadas a doença mais ligeira.
Desta forma, reduz-se parte da distância entre aquilo que o sangue sugeria há anos e o que o tecido agora mostra de forma inequívoca.
Limitações que importam
Antes de os fabricantes de vacinas apostarem fortemente em estratégias centradas na pele para programas de saúde pública de grande escala, há lacunas que continuam relevantes.
A sequenciação genética e de recetores mais profunda foi obtida apenas em três doentes, e o rastreio mais rigoroso de células específicas do vírus envolveu oito.
Além disso, os investigadores não conseguiram separar migração celular de ancestralidade partilhada e não compararam a proteção em todos os quatro tipos virais.
Estas limitações tornam o resultado promissor, mas não definitivo, e ajudam a definir com clareza os próximos estudos.
Para onde isto leva
A dengue passou a parecer menos uma doença explicável apenas pelo sangue e mais uma condição que é, em parte, decidida na pele.
Uma vacina capaz de mobilizar essa resposta nos tecidos ainda precisará de validação em maior escala, mas o alvo tornou-se finalmente mais nítido.
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