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Escavações no Palais de Justice revelam muralha romana e palácio medieval na Île de la Cité

Arqueólogo com capacete e colete limpo escava sítio arqueológico urbano junto a edifício antigo.

Entre andaimes, berbequins e controlos de segurança, a solene moldura do Palais de Justice deixou revelar uma paisagem que parecia perdida: paredes de época romana, sepulturas medievais e ladrilhos de pavimento ricamente coloridos. Aquilo que começou como uma intervenção de rotina para reabilitar o edifício está agora a baralhar vários capítulos da história da cidade.

Um palácio da justiça que afinal é um tesouro arqueológico

À primeira vista, o Palais de Justice de Paris, na Île de la Cité, impõe-se como um centro puro de poder: tribunais, polícia, zonas de acesso restrito. Quase ninguém esperaria encontrar ali vestígios de uma cidade fronteiriça romana ou de um palácio real medieval. Foi precisamente neste cenário que, no final do verão de 2025, entraram em ação arqueólogos da Cidade de Paris e do instituto francês de investigação Inrap.

O gatilho foi um conjunto de obras de reabilitação já previstas. Antes de chegarem as máquinas pesadas e o betão, era necessário saber o que existia no subsolo. Em França, estas “escavações preventivas” são obrigatórias quando projetos de construção atingem áreas historicamente sensíveis.

"Numa área de pouco mais de 100 metros quadrados, no coração da representativa Cour du Mai, veio à luz uma sucessão inesperadamente densa de fases construtivas - da Antiguidade à Época Moderna."

O trabalho não se limitou a recolher cerâmicas dispersas ou a registar muros isolados. O que se desenhou foi um uso contínuo do espaço ao longo de quase 2.000 anos. E, em vários pontos, os novos dados entram em choque com plantas históricas conhecidas da ilha.

O grande troço de muralha da Antiguidade tardia

Entre os achados, um elemento destaca-se de imediato: um robusto remanescente de parede datado da Antiguidade tardia. A base desta estrutura tem cerca de três metros de largura - demasiado para ser apenas uma parede doméstica. Essa dimensão aponta para uma função militar, ou pelo menos marcadamente representativa.

A hipótese de trabalho dos arqueólogos, para já, é clara: este troço fazia parte do sistema de fortificação tardio da Île de la Cité, isto é, de uma linha defensiva que teria protegido Paris entre os séculos III e V d.C.

"Se esta ligação se confirmar, o traçado conhecido da muralha romana de Paris terá de ser corrigido - e logo num dos lugares mais simbólicos da capital."

Em torno do muro, as equipas registaram cerca de vinte fossas, vários buracos de poste e pelo menos seis sepultamentos em inumação simples. Este tipo de conjunto sugere usos mistos: atividades artesanais, obras do quotidiano e, muito provavelmente, pequenas construções em madeira.

Sob estas camadas, apareceram ainda indícios mais antigos. As valas e escavações mais remotas são datadas da transição do século I a.C. para o século I d.C. Isso aproxima as primeiras marcas de urbanização romana na ilha do início efetivo do domínio romano na Gália.

O que este troço de muralha muda na forma como vemos Paris

Até agora, os historiadores defendiam um percurso específico para a muralha da Antiguidade tardia, apoiados em descobertas anteriores e em cartografia antiga. O novo alinhamento não encaixa de forma linear nesse modelo, abrindo diferentes possibilidades:

  • A fortificação seguia um traçado distinto do que se aceitava.
  • Existiam estruturas defensivas adicionais, como obras avançadas.
  • Algumas zonas da ilha eram mais densamente fortificadas do que outras.

Qualquer uma destas leituras tem impacto na interpretação da malha urbana da época: onde estariam as portas de acesso? Que áreas eram consideradas protegidas? Quão compacto era o espaço construído?

Esplendor medieval sob o pavimento do pátio

As escavações não trouxeram apenas evidências romanas e da Antiguidade tardia. Mesmo por cima das camadas mais antigas, surgiram marcas de outra fase histórica: a do poder régio medieval na Île de la Cité.

Durante os trabalhos de remoção, as equipas encontraram estratos espessos de destruição. Estes níveis podem ser associados às grandes remodelações realizadas depois do incêndio devastador de 1776. Misturados nesses entulhos, apareceram numerosos ladrilhos pintados.

"Os chamados "carreaux historiés" dos séculos XIII e XIV exibem motivos de flores-de-lis, representações de animais e padrões ornamentais - uma linguagem visual dos reis Capetíngios que também se encontra no Louvre."

Os investigadores já conheciam peças semelhantes na Cour Carrée do Louvre. No entanto, aqui, no Palais de Justice, estes ladrilhos surgem com um enquadramento diferente: como vestígios do antigo palácio real na ilha, muito antes de a corte se transferir para a margem do Sena junto do Louvre.

Uma cave inesperada

Um dos pontos mais relevantes para a história urbana e da construção é uma zona de cave medieval que se destacou com nitidez durante a intervenção. As paredes, os restos de pavimento e o recorte no terreno indicam que existiu ali um edifício de maior dimensão.

O aspeto mais surpreendente é que este compartimento não aparece em nenhuma das plantas históricas conhecidas. Apesar de décadas de investigação sobre o palácio real na Île de la Cité, esta parte do conjunto tinha permanecido invisível.

Os achados sugerem que, na Alta Idade Média, o palácio capetíngio teria uma organização interna mais complexa do que se supunha. Vários edifícios foram, mais tarde, transformados, demolidos ou incorporados em novas estruturas. A área de cave sob a Cour du Mai é um desses “pontos cegos” que, pela primeira vez, fica claramente delimitado.

Sepulturas entre o edifício judicial e a catedral

Dentro da área escavada, os arqueólogos cartografaram ao todo onze sepultamentos. Trata-se de enterramentos simples, sem espólio relevante. Para já, não é possível afirmar se pertencem a um pequeno cemitério, a uma ampliação de um adro ou a uma zona funerária independente.

Categoria de achado Período Possível interpretação
Base de muralha (c. 3 m de largura) Antiguidade tardia (séc. III–V) Parte da fortificação urbana da Île de la Cité
Sepulturas em terra simples Antiguidade até Idade Média Pequena zona funerária próxima de instituições religiosas
Ladrilhos pintados com flores-de-lis séc. XIII–XIV Equipamento representativo do palácio real
Cave medieval Alta Idade Média Ala do complexo palaciano até agora desconhecida

A localização é particularmente delicada: entre Notre-Dame, a Sainte-Chapelle e os edifícios judiciais, acumulam-se funções históricas distintas. A justiça, a administração régia e as instituições religiosas coexistiram na ilha durante longos períodos. Por isso, também as camadas do subsolo revelam uma diversidade de usos.

O que acontece em 2026

A campanha de 2025 foi apenas a primeira fase. Para a primavera de 2026 está prevista uma segunda intervenção noutra área do Palais de Justice. A expectativa é obter novos dados sobre o traçado das muralhas antigas e sobre a configuração das construções medievais.

Depois de terminadas as escavações no terreno, começa a etapa de laboratório e arquivo. Fragmentos de cerâmica, pedaços de ladrilho, amostras de argamassa e restos ósseos serão datados, analisados e comparados com séries já conhecidas. Em paralelo, serão revisitados mapas históricos, plantas e fontes escritas, para ligar a informação recém-obtida ao que ficou registado.

"É precisamente a combinação entre os achados no solo e o trabalho de arquivo que pode mostrar onde os desenhos antigos são incompletos - e até que ponto a estrutura da cidade se deslocou ao longo dos séculos."

Porque estes achados têm impacto para lá de Paris

O que emerge num pátio do Palais de Justice não interessa apenas aos apaixonados pela história urbana parisiense. Os resultados cruzam várias áreas de investigação: arquitetura militar romana, desenvolvimento urbano no início da Idade Média, cultura cortesã na Alta Idade Média e reconfigurações após catástrofes como o incêndio de 1776.

Para a arqueologia romana, este troço de muro é um exemplo concreto de como as cidades tardias reforçavam e densificavam os seus núcleos. A associação entre uma parede larga, fossas adjacentes e sepulturas permite pensar no uso das franjas de uma fortificação: militar, civil ou híbrido.

Para os estudos medievais, a cave, os ladrilhos e as camadas de entulho mostram como funcionavam as residências régias: espaços de representação, obras contínuas, e reconstruções radicais após episódios destrutivos. É exatamente essa dinâmica que o material sob a Cour du Mai deixa entrever.

Conceitos explicados: arqueologia preventiva e "carreaux historiés"

Para quem não lida com escavações no dia a dia, alguns termos técnicos podem soar opacos. Neste projeto, dois aparecem com particular frequência.

Arqueologia preventiva significa que as escavações são realizadas antes das obras. Os promotores têm de confirmar se existem vestígios protegidos no subsolo da área intervencionada. Só assim se salvaguardam sinais relevantes do passado, antes de as máquinas os destruírem de forma irreversível.

"Carreaux historiés" são ladrilhos decorativos de pavimento, muitas vezes quadrados e em barro. Apresentam cenas figurativas, brasões e motivos vegetais ou animais. Na Idade Média, as casas reinantes recorriam a este tipo de pavimento para afirmar estatuto e identidade. No Palais de Justice, as flores-de-lis remetem de forma inequívoca para a monarquia francesa.

O que estas escavações podem significar para visitantes e residentes

À medida que a análise científica avançar, surgem questões práticas: algumas descobertas poderão ficar visíveis? Haverá forma de explicar, no local, as camadas romanas e medievais sob o Palais de Justice?

São plausíveis vários caminhos. Certos segmentos de muro poderão ser integrados no futuro projeto de reabilitação, por exemplo com pavimentos de vidro ou pequenas áreas expositivas. Também é possível incorporar reconstruções digitais em visitas guiadas ou exposições, tornando percetíveis as diferentes fases - da fortificação romana ao palácio real e ao atual complexo judicial.

Para a cidade, estes achados representam simultaneamente oportunidade e desafio. Trazem conhecimento valioso, mas podem atrasar cronogramas de obra. Ao mesmo tempo, reforçam a noção de que, sob superfícies aparentemente banais, existem camadas históricas sucessivas. No centro de Paris, quase qualquer grande intervenção pode abrir janelas inesperadas para o passado - como acontece agora, à sombra das salas de tribunal na Île de la Cité.


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