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Empresa de investimentos imobiliários compra 13 casas no bairro do Cedro, em Gaia, e avança com despejos: nove famílias até julho

Família triste com poucos pertences numa caixa, deixando uma casa numa rua residencial.

Uma empresa de investimentos imobiliários adquiriu 13 casas no bairro do Cedro, em Gaia, e está a avançar com despejos. Se o plano seguir em frente, nove agregados terão de entregar as habitações até ao fim de julho.

A compra foi feita no início deste ano, de uma só vez e por mais de um milhão de euros. O impacto, dizem os moradores, recai sobre cerca de 25 pessoas - entre elas crianças com deficiência e idosos - que vivem com recursos muito limitados.

Bairro do Cedro, em Gaia: compra das 13 casas e risco de despejo

"Isto é uma situação...". Conceição Pedro baixa o olhar. A expressão de fragilidade da octogenária, sem conseguir completar a frase, resume o desamparo de quem sente a vida suspensa por uma decisão de mercado e por uma lei do arrendamento que, neste caso, não os salvaguarda.

Pequena e de rosto marcado por rugas profundas, Conceição admite estar "cansada". Já nem contabiliza o tempo passado a tratar do marido, com 84 anos, que a doença de Alzheimer deixou acamado. Estão casados há 58 anos e foi nessa altura que arrendaram a casa onde continuam a viver. Nunca imaginaram enfrentar um despejo nesta fase, com um deles numa cama.

O cenário, explicam os residentes, tornou-se possível por causa da forma como a maior parte dos contratos foi celebrada: os arrendamentos foram feitos com a usufrutuária do conjunto de imóveis. Com a morte dessa usufrutuária, em 2021, os contratos caducaram automaticamente, por terem sido assinados nessa qualidade.

Há, contudo, uma exceção: um contrato ainda em vigor, de uma inquilina com mais de 80 anos, foi feito com o então proprietário antes de este ter constituído o usufruto. Por ser um contrato vitalício, é também o único protegido por lei.

Entretanto, para evitarem a saída, os restantes moradores tiveram de assinar novos contratos há cinco anos, desta vez com as herdeiras do proprietário. Ainda assim, essas mesmas herdeiras acabaram por vender as casas em janeiro passado à empresa de investimentos imobiliários de Torre de Moncorvo. No negócio, estavam também incluídas três casas devolutas.

Explicação legal

Quando é o usufrutuário a celebrar o arrendamento, "em caso de falecimento, o contrato caduca e o inquilino perde todos os direitos", esclarece José Fernandes Martins, advogado especialista em Direito do Arrendamento. E essa perda, acrescenta, acontece mesmo em contratos anteriores a 1990 que não transitaram para o Novo Regime do Arrendamento Urbano (NRAU), ou seja, nos chamados contratos vitalícios.

A razão, explica o advogado, prende-se com a natureza do vínculo: "o contrato não é pleno". Quem o assinou tinha "poderes precários", uma vez que detinha apenas o usufruto do imóvel e não a propriedade.

"Agora, para onde vou, com 73 anos? Para a rua? Tudo bem que os senhores compraram as casas, mas tem de haver uma solução da parte do Estado, porque descontei a minha vida toda", protesta Manuela Azevedo. Mudou-se para ali em 1978 e foi investindo na casa ao longo de quase meio século, com melhorias como "cozinha e casa de banho novas".

Obras e investimento dos moradores nas casas

"Toda a gente fez obras aqui, com a antiga senhoria, até 2021. Pusemos portas novas e persianas, que não existiam. E água quente fomos nós que pusemos, porque só tinha fria, tal como o chão das casas. Se quiséssemos tomar banho, era em cimento, com uma bacia e água fria. Fizemos obras nos telhados, pintamos as casas por fora... No fundo, estávamos a valorizar as casas, mas nunca esperávamos que uma situação destas acontecesse. Nós é que compusemos as casas e eles é que vão vender e ganhar dinheiro. Da última vez, gastei aqui 15 mil euros, e então agora não levo nada e ainda me põem na rua?", questiona Manuela. Desde que recebeu a carta com o despejo, conta que precisou de apoio psicológico para lidar com a ansiedade.

A angústia repete-se nas restantes portas. "Estamos mesmo no lodo. Para onde a gente vai? Estamos quase todos inscritos desde 2021 na Gaiurb [empresa municipal que gere a habitação social], mas não há casas disponíveis", desabafa Arminda Anacleto. A moradora recorda ainda que "a câmara tem direito de preferência [no processo de venda], e podia ter comprado" os imóveis.

Questionada pelo JN, a autarquia de Gaia responde que "não há enquadramento para o exercício do direito de preferência", motivo pelo qual decidiu não o accionar. Acrescenta que, em 2024, deu entrada um pedido de informação prévia para "obra de demolição e reconstrução de moradias unifamiliares", prevendo o aumento de mais um piso, mas o pedido teve "decisão desfavorável". O JN não conseguiu obter resposta da empresa que comprou o bairro.

Quanto a soluções de habitação, a câmara refere que "existem seis em lista de espera", colocados entre as posições 60 e 1444, num universo total de 2006 candidatos a casas municipais.

Carta a 10 de fevereiro

"E agora, vamos para debaixo da ponte?", pergunta Anália Rios, prestes a completar 65 anos, descrevendo-se "desnorteada, sem dormir". Sandra Magalhães, que vive numa das casas há 13 anos, afirma que "é impossível" acompanhar os valores praticados hoje. E Manuela, que se "governa com a reforma de 580 euros", insiste: "Como posso pagar uma renda?".

"A maior parte são pessoas já reformadas ou com baixos rendimentos", reforça Arminda Anacleto. Tem 60 anos, está desempregada e, em casa, apenas entra a reforma de 500 euros do companheiro. Ainda assim, garante que os moradores admitiam aumentos equilibrados, mas asseguram que "nunca houve proposta nenhuma para atualizá-las".

Em vez disso, dizem, chegou apenas uma carta datada de 10 de fevereiro: uma "oposição à renovação do contrato de arrendamento". Em pouco mais de meia dúzia de linhas, pedia-se que "o locado seja entregue livre de pessoas" - pessoas que ali construíram a vida e que agora não sabem onde recomeçar. Arminda confessa o efeito imediato: "Ficou tudo apavorado. Ter uma casa para habitar é a segurança de uma pessoa".

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