Quando chegam os primeiros dias quentes, volta a ouvir-se um coro de asas e chilreios em jardins da frente, hortas urbanas e varandas. Chapins e pisco-de-peito-ruivo recebem atenção de sobra: são fotografados, alimentados e admirados. Já outro passarinho muito comum acaba rapidamente catalogado como “incómodo” - e muitas vezes é enxotado. Especialistas da Ligue pour la Protection des Oiseaux (LPO), o equivalente francês do NABU, deixam agora uma mensagem clara: este pássaro não é um problema; é, antes, um aliado essencial no jardim.
Porque é que o pardal foi durante muito tempo visto como uma praga
Falamos do pardal-doméstico, conhecido no dia a dia simplesmente como pardal. Vive lado a lado com as pessoas há séculos. Ainda assim, carrega uma reputação negativa. No contexto agrícola, foi durante muito tempo tratado como “ladrão de grãos”, por se alimentar de cereais e sementes. Esta imagem ficou enraizada e passou do campo para o jardim de casa.
Até hoje, muitos proprietários de jardins continuam a ver sobretudo um comedor de sementes que mexe em canteiros acabados de semear. A LPO descreve esta atitude como um “olhar antropocêntrico”, isto é, uma leitura demasiado centrada no humano: olha-se apenas para o próprio rendimento, ignorando o sistema do jardim como um todo.
"O pardal come, sim, sementes - mas, ao mesmo tempo, estabiliza o equilíbrio ecológico do jardim e, com isso, apoia toda a comunidade de plantas e animais."
Sob um ponto de vista puramente económico, durante muito tempo o pardal pareceu a muitos desnecessário ou até prejudicial. Ecologicamente, a interpretação é completamente diferente. Cada espécie desempenha uma função na rede de interações. Quando uma dessas peças desaparece, o conjunto perde estabilidade. É precisamente isso que já se observa em várias regiões da Europa, onde as populações de pardais diminuíram de forma acentuada.
Aliado no canteiro: o que o pardal faz pelo jardim
Quem fica apenas na ideia dos grãos perde o essencial: os pardais alimentam as crias sobretudo com larvas de insetos. Estas são ricas em proteínas, portanto ideais para o crescimento dos juvenis. Durante a época de reprodução, os adultos recolhem sem descanso lagartas, larvas e outros pequenos invertebrados - funcionando como um controlo natural de pragas.
"Um casal de pardais com uma ninhada faminta pode retirar, em poucas semanas, milhares de larvas de insetos do jardim - sem venenos, sem custos, a qualquer hora."
O contributo no jardim vai além disso:
- Regulação de populações de insetos: sobretudo na época de nidificação, os pardais consomem grandes quantidades de lagartas, larvas de mosquitos e pequenos escaravelhos.
- Estabilização do ecossistema: por integrarem a cadeia alimentar, ajudam a travar explosões populacionais - o que protege as plantas.
- Dispersão de sementes: transportam restos de bagas e frutos, promovendo uma sementeira natural.
- Alimento para aves de rapina: os pardais são presa de falcões e açores, contribuindo também para o equilíbrio dessas populações.
Ou seja: em vez de “praga”, os pardais são peças de um jardim funcional e vivo. Quem os afasta acaba por chamar o problema de volta - só que com outra cara: mais pragas, menos aves canoras e um sistema mais frágil.
Porque muitos jardins se tornaram inabitáveis para os pardais
Em teoria, os pardais seriam dos grandes beneficiados pela proximidade com as pessoas. Aproveitam telhados, fendas em muros e sebes para fazer ninho. A própria LPO chega a chamá-los um “companheiro regular do ser humano”. Ainda assim, em muitas cidades e aldeias, as populações estão a recuar.
Existem várias razões:
| Problema | Consequência para o pardal |
|---|---|
| Superfícies impermeabilizadas, jardins de pedra | Menos insetos, menos alimento, quase sem locais para banhos de pó e areia |
| Reabilitações muito “seladas” dos edifícios | Desaparecem locais de nidificação em caleiras e fendas |
| Pesticidas e inseticidas | Queda dos insetos que servem de alimento |
| Relvados monótonos | Pouca cobertura, sem pontos naturais de alimentação |
Muitas destas mudanças têm origem humana - e, por isso mesmo, podem ser revertidas por pessoas. Quem torna o jardim um pouco mais favorável ao pardal ganha, de imediato, um equilíbrio mais robusto e natural.
O que os proprietários podem fazer, na prática, pelos pardais
A boa notícia é que não é preciso transformar o jardim de alto a baixo. Muitas vezes, bastam alguns ajustes bem direcionados para que os pardais se fixem de novo - ou para que não desapareçam.
1. Mais estrutura, menos relvado estéril
Os pardais precisam de esconderijos, poleiros e fontes de alimento. Um espaço totalmente “arrumado” tende a afastá-los. Ajudam, por exemplo:
- Sebes com arbustos autóctones (por exemplo, roseira-brava, abrunheiro, ligustro)
- Plantas perenes cujas inflorescências com sementes ficam de pé durante o inverno
- Alguns “cantos selvagens” com urtigas, gramíneas e folhas
Estas zonas oferecem alimento e refúgio contra gatos e aves de rapina. Ao mesmo tempo, esta maior complexidade aumenta a diversidade de insetos - que, por sua vez, alimenta as crias.
2. Promover insetos e banir venenos
Para ajudar pardais, é preciso começar pela base: os insetos. Sem insetos, não há juvenis. Em vez de química no canteiro, há alternativas úteis:
- Consociações na horta para dispersar melhor as pragas
- Plantas que atraem auxiliares, como calêndula, endro ou funcho
- Evitar sprays inseticidas em terraços e varandas
Muitos problemas na horta abrandam assim que se forma uma rede saudável de predadores, auxiliares e aves. E os pardais são um elemento central dessa rede.
3. Criar ou conservar locais de nidificação
Ao reabilitar telhados e fachadas, perdem-se frequentemente - sem que se note - locais de reprodução importantes. Quem constrói ou renova pode deixar nichos propositadamente ou prever elementos próprios para nidificação. Caixas-ninho clássicas também ajudam, desde que sejam colocadas em zonas abrigadas e com um diâmetro de entrada adequado.
Importante: os locais de nidificação devem ser, tanto quanto possível, seguros contra gatos e manter alguma distância de áreas muito usadas, como terraços, para que as aves possam criar sem perturbações.
Porque a divisão entre “útil” e “prejudicial” engana
A etiqueta “auxiliar” versus “praga” parece prática à primeira vista, mas na natureza leva muitas vezes a conclusões erradas. A LPO sublinha que, num sistema intacto, nenhuma espécie é “prejudicial” para a biodiversidade. O problema surge quando a intervenção humana é massiva: monoculturas, pesticidas, ocupação do solo.
O pardal é um bom exemplo. Se for avaliado apenas pelo número de sementes que come, ignora-se o seu papel como caçador de insetos, dispersor de sementes e espécie-presa. O jardim pode até parecer mais “limpo” no curto prazo, mas, a longo prazo, torna-se mais vulnerável a surtos de doenças e de pragas.
"Um jardim vivo precisa de conflitos - mas resolve-os sozinho, se todos os elos da cadeia continuarem presentes."
Ao aceitar o pardal, toleram-se pequenas perdas de sementeira e ganha-se, em troca, uma rede estável de aliados, que lida muito melhor com calor, seca e novas pragas do que qualquer jardim ornamental impecavelmente planeado.
Dicas práticas para o dia a dia no jardim
Para muitas pessoas, a questão é simples: até onde posso ir sem pôr em risco a colheita? Algumas medidas pragmáticas:
- Proteger pontualmente plantas jovens mais sensíveis com redes, sem “embrulhar” o canteiro inteiro.
- Planear algumas filas como “compensação” - por exemplo, girassóis ou millet, onde os pardais possam alimentar-se.
- Colocar bebedouros para aves, sobretudo em verões quentes. A água atrai pardais e, ao mesmo tempo, ajuda-os a sobreviver.
Assim cria-se um dar e receber que, surpreendentemente, se ajusta depressa. Muitos jardineiros contam que, ao fim de poucos anos com mais pardais, têm menos problemas com certas pragas - e, além disso, desfrutam de mais canto no jardim.
Quem observa os pardais com atenção aprende, pelo caminho, muito sobre relações ecológicas: como uma espécie aparentemente “chata” se torna indispensável, como pequenas intervenções podem desencadear grandes reações em cadeia e porque um punhado de aves canoras, muitas vezes, faz mais do que qualquer proteção química de plantas. Este olhar ajuda a ver o jardim não só como área de produção, mas como um pequeno ecossistema, no qual até um pássaro subestimado como o pardal tem um papel estrutural.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário