Todos os invernos, há quem pendure bolas de gordura e encha dispensadores de sementes e, depois, se pergunte porque é que uma ave tão comum do jardim continua teimosamente no chão.
Enquanto chapins-azuis e pardais fazem as habituais acrobacias à volta de comedouros a baloiçar, os melros percorrem o relvado, afastando folhas com pontapés curtos e a sondar a terra. Muitos donos de casas concluem que estas aves “torcem o bico” ao banquete. Na verdade, o seu comportamento obedece a uma estratégia rigorosa de sobrevivência, que entra em choque com a forma como a maioria dos jardins é gerida na estação fria.
Porque é que os melros ignoram os comedouros clássicos de jardim
Os melros não se alimentam como os chapins ou os tentilhões. A própria anatomia do corpo leva-os a procurar comida de outra maneira, sobretudo quando o inverno a sério chega.
No outono, sebes e trepadeiras funcionam como uma despensa generosa. Hera, sorveiras, pilriteiros, sabugueiros e outras plantas com bagas ajudam os melros a acumular reservas de gordura. Em janeiro, essa oportunidade fecha-se: tordos migradores e outras aves limpam muitos arbustos semanas antes, e o que sobra tende a tornar-se impraticável assim que a geada aperta.
Com o frio, as bagas endurecem como berlindes. Para uma ave com um bico fino e feito para sondar, isso é um entrave. Ao contrário de muitos fringilídeos, os melros não têm um bico cónico e robusto, capaz de partir sementes ou de martelar frutos rijos. Aquilo que em outubro era simples de consumir fica, a meio do inverno, “trancado” pelo gelo.
"Quando as temperaturas descem a pique, os melros perdem acesso à maior parte da comida acima da altura da cabeça e têm de mudar toda a sua estratégia para o chão."
Esta mudança sazonal cria um desencontro com aquilo que as pessoas costumam oferecer. Comedouros tubulares, gaiolas para amendoins e bolas de gordura penduradas servem bem a espécies ágeis, que se agarram e se penduram. O melro faz outra coisa: caminha, remexe e escava.
Alimentam-se no chão, não fazem acrobacias no ar
Num dia de geada forte, basta observar um melro durante alguns minutos. Em vez de subir aos comedouros, vai andar de um lado para o outro debaixo dos arbustos, a lançar folhas para trás com pontapés rápidos. Não é manha: é instinto.
Os melros são forrageadores do solo. As pernas e os pés estão adaptados a correr e a raspar a terra, não a ficar suspensos em arame ou rede. Tentar equilibrar-se numa bola de gordura a baloiçar custa energia valiosa - precisamente quando cada caloria conta para aguentar uma noite de inverno com 14 horas.
Além disso, pousar de forma desajeitada e a descoberto aumenta o risco. Um melro mal agarrado a um comedouro oscilante tem menos capacidade de arrancar de imediato se um gato atacar ou se um gavião se atirar em voo rasante.
"Para um melro, comer onde pode correr e mergulhar para a cobertura é mais seguro do que lutar com um comedouro no ar."
É por isto que tantas pessoas acham que os melros estão a “ignorar” a comida do jardim. Na prática, a comida está no sítio errado e, muitas vezes, na forma errada. O corpo da ave empurra-a para ficar baixa, junto a arbustos e sebes, e para procurar presas macias e vivas.
O calor escondido debaixo das folhas
O verdadeiro armazém de inverno está logo abaixo da superfície. Um relvado que parece morto e gelado pode esconder pequenas faixas de vida sob folhas caídas e cobertura morta. É exatamente aí que os melros concentram o esforço.
Uma camada espessa de folhas desempenha duas funções ao mesmo tempo. Por um lado, os decompositores continuam ativos debaixo dessa “manta”, libertando algum calor. Por outro, as folhas isolam o solo e atrasam o congelamento. Onde a terra nua fica dura como pedra, o solo sob as folhas costuma manter-se mais solto e quebradiço.
Os melros detetam essa diferença e escolhem os limites dos canteiros, a base das sebes e qualquer canto mais “desarrumado” onde o jardineiro deixou a natureza em paz.
"Debaixo de um tapete de folhas, o solo mantém-se macio o suficiente para o bico do melro chegar a minhocas, larvas de escaravelho e outras presas ricas."
Quando os jardins são arrumados de forma agressiva - varridos, rastelados e limpos de detritos - essa proteção desaparece. Do ponto de vista de um melro, um relvado “impecavelmente mantido” transforma-se num deserto alimentar assim que a geada cai.
Porque é que as minhocas valem mais do que sementes para sobreviver ao inverno
Perante aves com aspeto faminto, muita gente responde com mais sementes. Isso ajuda várias espécies; para os melros, só resolve até certo ponto. Eles conseguem comer grão e fruta, mas o “motor” de inverno funciona melhor com proteína animal e gordura.
Minhocas, larvas de típulas e outros invertebrados são como combustível concentrado: juntam proteína, gordura e água num só pacote. Uma ave que se alimente sobretudo de sementes secas precisa de beber mais, digere com mais esforço e, mesmo assim, obtém um retorno mais pobre por cada bicada.
Em condições duras, cada minhoca conta. Um pequeno número de presas ricas em proteína pode estabilizar melhor o peso do que um grande volume de grão seco. É uma das razões pelas quais os melros insistem na folhada, mesmo quando há sementes espalhadas ali perto.
"Para um melro, uma minhoca gorda debaixo das folhas muitas vezes vale mais do que uma dúzia de sementes de girassol num tabuleiro gelado."
A fruta continua a ter importância. Maçãs e peras caídas, sobretudo quando começam a apodrecer, fornecem açúcar e água de forma acessível. Com o frio, amolecem e mantêm-se comestíveis quando as bagas duras encolhem e secam. Ainda assim, sem proteína e gordura, a fruta por si só não paga toda a “conta” do inverno.
Como alimentar melros da forma como eles realmente comem
Ajudar melros passa por imitar a mesa natural deles - não por os tentar obrigar a usar a nossa. O objetivo é manter a comida baixa, fácil de alcançar e perto de abrigo, limitando ao mesmo tempo o risco de predadores.
Criar locais seguros para alimentação no solo
Algumas mudanças simples podem alterar por completo a forma como os melros usam o jardim no inverno:
- Deixe manchas de folhas e cobertura morta sob sebes e arbustos, em vez de rastelar tudo até ficar nu.
- Coloque comida no chão ou numa plataforma muito baixa; não dependa apenas de comedouros pendurados.
- Mantenha as zonas de alimentação a cerca de dois metros de cobertura densa, para que as aves possam mergulhar para segurança.
- Evite cantos onde gatos possam emboscar por trás de muros, arrecadações ou caixotes.
Há quem faça uma “mesa de chão” com uma tábua simples assente em tijolos, apenas alta o suficiente para manter a comida fora de neve mais profunda, mas ainda ao nível de um melro. Outros colocam a comida bem junto à base dos arbustos ou ao longo de sebes, onde predadores maiores têm mais dificuldade em seguir.
O que colocar para os melros comerem
Alguns alimentos correspondem muito melhor às necessidades deles do que as misturas de sementes padrão. Em vagas de frio, estas opções tendem a funcionar bem:
| Tipo de alimento | Porque ajuda | Como oferecer |
|---|---|---|
| Maçãs e peras amachucadas | Fonte de energia macia e húmida; fácil de rasgar para o melro | Cortar em metades ou pedaços e colocar debaixo de arbustos |
| Passas ou sultanas demolhadas | Açúcares concentrados com humidade extra após demolhar | Demolhar em água morna, escorrer e depois espalhar em tabuleiros baixos |
| Flocos de aveia com um pouco de óleo | Calorias extra; mais fácil de digerir do que grãos inteiros | Misturar a aveia com um fio de óleo de colza ou de girassol |
| Gorduras vegetais macias | Energia densa quando há poucos insetos | Barrar em casca de árvore ou em pedras planas colocadas ao nível do chão |
Evite restos salgados ou alimentos muito processados. Resultam melhor alimentos simples e energéticos que imitem a textura da dieta natural. Retire sempre sobras com bolor e mude os pontos de alimentação de vez em quando para reduzir a acumulação de dejetos.
Porque é que cantos “desarrumados” valem mais do que comedouros sofisticados
A sobrevivência dos melros no inverno depende tanto da estrutura do jardim como daquilo que se coloca num comedouro. Sebes densas, arbustos com espinhos e bordaduras não cortadas criam corredores seguros entre locais de dormida e zonas de alimentação.
Mesmo num pequeno jardim urbano, um canto negligenciado com silvas, hera e folhada pode albergar minhocas, aranhas e larvas de escaravelho suficientes para manter várias aves durante uma vaga de frio. Um espaço excessivamente “arranjado”, com solo exposto e arestas recortadas, pode agradar ao olhar humano, mas costuma falhar para a vida selvagem.
"Deixar alguma “imperfeição” no jardim dá aos melros os microclimas e os esconderijos de que precisam quando o termómetro desce."
Em cidades e subúrbios, milhares de quintais demasiado limpos somam-se. Numa rua onde todos aspiram o relvado e removem as folhas, haverá muito menos invertebrados do que numa onde se deixa a natureza ocupar as margens. Essa diferença ajuda a determinar quantos melros conseguem passar do Ano Novo até à primavera.
Formas extra de apoiar melros para além da comida
Alimentar ajuda no imediato, mas o desenho do jardim ao longo de vários anos tem um impacto mais profundo no número de melros. Plantar arbustos com bagas, como pilriteiro, sorveira, cotoneastro ou azevinho, prolonga o festim de outono e reduz o choque quando a geada bloqueia o solo. Sebes mistas com espécies nativas acolhem mais insetos e aranhas do que barreiras de uma só espécie ou painéis nus.
Outro ponto está na forma como se trata o solo. Evitar o uso pesado de pesticidas protege as minhocas e outros invertebrados de que os melros dependem. Deixar a relva crescer um pouco mais, ou manter aparas em alguns cantos, conserva humidade no chão e favorece a vida do solo. Essa vida, mais tarde, transforma-se nos “snacks” em movimento de que os melros precisam quando a alimentação tipo supermercado falha.
Por fim, pense no jardim ao longo das estações. O melro que lhe rouba framboesas em junho pode ser o mesmo que, em janeiro, anda a chutar folhas para sobreviver com aquilo que as suas escolhas de manutenção deixaram disponível. Essa ligação entre a frustração de verão e a responsabilidade de inverno muda muitas vezes a forma como se olha para a “ave barulhenta no canteiro”. Quando os jardineiros alimentam e abrigam os melros de acordo com os seus instintos, essas aves supostamente “ingratas” deixam de andar a fugir aos comedouros e começam a prosperar exatamente onde pertencem.
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