Investigadores descobriram que uma mutação genética observada em animais adaptados a grandes altitudes ajuda o cérebro a voltar a formar mielina - a camada isolante que envolve as fibras nervosas - depois de lesões.
O achado aponta para um mecanismo de reparação já existente no organismo, com potencial para alterar a abordagem a doenças como a Esclerose Múltipla (EM) e a paralisia cerebral.
Pista vinda do ar rarefeito
Em ratos submetidos a ambientes com pouco oxigénio, os que tinham a mutação mantiveram uma mielina mais espessa em torno das fibras nervosas e apresentaram melhor desempenho cognitivo e social.
Ao analisar esta resposta, Liang Zhang, da Shanghai Jiao Tong University School of Medicine (SJTUSM), descreveu de que forma a versão alterada do gene Retsat conseguia preservar a mielina mesmo em situação de stress.
Essa vantagem manteve-se até à idade adulta e, além disso, a mesma mutação também acelerou a recuperação quando o dano já tinha acontecido.
Em conjunto, os dados indicam que o efeito não se limita às fases iniciais do desenvolvimento e reforçam a necessidade de perceber como este reparo se sustenta ao longo de diferentes etapas de lesão cerebral.
Porque é que a mielina falha
Quando a mielina afina ou se rompe, os sinais que atravessam o cérebro e a medula espinal tornam-se mais lentos ou seguem trajectos errados.
Na Esclerose Múltipla (EM), o sistema imunitário ataca esse revestimento, deixando as fibras expostas e mais difíceis de utilizar.
Uma perda grave de oxigénio no período do parto também pode causar Encefalopatia Hipóxico-Isquémica (EHI), uma lesão cerebral que pode resultar em paralisia cerebral.
Como ambas as situações removem o “isolamento” das fibras, um caminho biológico capaz de o reconstruir pode ser relevante em fases muito distintas da vida.
A reparação acelera
Em ratos adultos, um tipo de lesão que imitava a EM sarou mais depressa quando a variante genética já estava presente.
Nos locais afectados, o cérebro mantinha mais oligodendrócitos - as células que produzem mielina - o que permitia iniciar mais cedo a formação de nova mielina.
No tecido lesionado, a reparação não foi apenas mais rápida: revelou-se também mais completa e abrangente.
Isto é importante porque uma recuperação “a meio” pode deixar os circuitos vulneráveis mesmo depois de passar a primeira vaga de agressão.
A via da vitamina A
Testes adicionais apontaram para a ATDR, um metabolito da vitamina A, como a ligação química entre a mutação e a produção de nova mielina.
Os neurónios com o gene alterado geraram mais ATDR, porque a variante levou a enzima subjacente a funcionar com maior intensidade.
Administrada a ratos com uma doença semelhante à EM, a ATDR diminuiu a gravidade do quadro e melhorou a capacidade de movimento.
Com isto, a descoberta deixou de ser apenas uma explicação genética e passou a sugerir uma hipótese terapêutica baseada numa molécula que o próprio corpo já produz.
Sinais entre células
A transferência essencial ocorreu entre dois tipos de células cerebrais, e não apenas dentro das células responsáveis por fabricar mielina.
Os neurónios transformaram a ATDR num sinal de vitamina A mais potente e enviaram essa mensagem a células de suporte imaturas na proximidade.
Quando um receptor activador de genes respondeu, essas células maturaram e começaram a envolver as fibras nervosas.
Esta sequência ajuda a perceber como a mutação podia actuar “à distância” e, ainda assim, terminar em mais mielina.
Porque o tratamento importa
A maioria dos fármacos para a EM actua reduzindo o ataque imunitário que remove a mielina das fibras nervosas.
Muitos conseguem diminuir as recaídas, mas continuam a ter dificuldade em travar a progressão quando o dano se vai acumulando no sistema nervoso central.
Como este mecanismo funcionou ao estimular a reparação, sugere uma estratégia diferente: reconstruir o isolamento, e não apenas impedir novas lesões.
Qualquer terapia futura poderá ter de combinar as duas frentes - acalmar o ataque e oferecer às ligações danificadas um caminho de recuperação.
Limites dos estudos em animais
O cérebro do rato é um bom modelo para estudar perda de mielina, mas não reflecte toda a complexidade da doença humana.
Em pessoas com EM, é comum existirem anos de inflamação, cicatrização e danos repetidos, um cenário muito mais exigente do que lesões laboratoriais de curta duração.
Ainda é preciso determinar que dose chega ao cérebro com segurança e se a mesma química funciona em tecido mais envelhecido.
Até lá, a ATDR deve ser encarada como uma pista promissora, e não como um tratamento iminente.
Lições da evolução
O estudo referiu que o ar a 4 480 metros (14 700 pés) contém cerca de 11% de oxigénio, face a aproximadamente 21% ao nível do mar.
“Evolution is a great gift from nature, providing a rich diversity of genes that help organisms adapt to different environments. There is still so much to learn from naturally occurring genetic adaptations,” afirmou Zhang.
Esta perspectiva reposiciona a biologia das montanhas como uma ferramenta de procura de reparação cerebral, e não apenas como um relato de sobrevivência em ambientes extremos.
O que vem a seguir
As próximas experiências terão de mostrar se a mesma via consegue reanimar substância branca cronicamente danificada, o tecido cheio de fibras envolvidas por mielina.
Os cientistas poderão testar compostos semelhantes à ATDR, acompanhar a reparação da mielina em exames cerebrais e medir se o sinal chega às áreas lesadas.
Os desenvolvedores de fármacos poderão concentrar-se menos em inventar nova química e mais em optimizar entrega, tempo de administração e estabilidade.
Se resultar, o benefício seria uma terapia orientada para recuperar função, em vez de apenas abrandar a perda.
Futuro da reparação cerebral
O estudo juntou numa só explicação uma adaptação animal, uma via da vitamina A e as células de reparação do cérebro para justificar o recrescimento de mielina.
Isto não garante uma terapia humana, mas abre um percurso claro em direcção a tratamentos que ajudem o sistema nervoso a reconstruir-se.
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