Cientistas identificaram três tipos de bactérias gástricas até aqui desconhecidas a viver no interior de cachalotes-pigmeus.
A descoberta liga estes animais discretos a uma rede microbiana pouco visível que poderá estar a influenciar a sua saúde de formas que os investigadores só agora começam a compreender.
Bactérias em cachalotes encalhados
Em seis de nove amostras de estômago recolhidas a partir de quatro baleias encalhadas, surgiram bactérias em espiral precisamente em zonas onde já se destacavam a mucosa lesionada e tecido inflamado.
Ao rever amostras arquivadas, o Instituto Oceanográfico Harbor Branch, da Universidade Atlântica da Flórida (FAU Harbor Branch), associou estes micróbios a três assinaturas genéticas.
Com base nas mesmas evidências, Annie Page, D.V.M., Ph.D., médica veterinária clínica e professora associada de investigação na instituição, detetou um padrão que avaliações de rotina não tinham identificado.
Ainda assim, as lesões deixavam em aberto uma questão central: se as bactérias ajudam a desencadear a doença ou se apenas se instalam em tecido já danificado.
Uma janela rara
Longe da costa, Kogia breviceps - uma pequena baleia mergulhadora de grande profundidade conhecida como cachalote-pigmeu - passa pouco tempo à superfície; por isso, os encalhes oferecem uma das janelas mais claras para a ciência.
Na costa leste da Flórida, a FAU Harbor Branch respondeu a 59 encalhes entre 1999 e 2020 e examinou 47 carcaças.
Esse registo prolongado foi importante porque os cachalotes-pigmeus em liberdade eram raramente observados, apesar de a espécie encalhar com uma frequência invulgar.
Sem esses episódios em praia, estas bactérias provavelmente teriam permanecido invisíveis - tal como os danos gástricos que as rodeavam.
Três linhagens bacterianas
Ao longo de 13 amostras, a equipa organizou as bactérias em três novos genótipos, designados Kogia Helicobacter 1, 2 e 3.
Aqui, “genótipo” significava uma variante genética dentro de uma família mais ampla, e nenhum deles correspondia a uma espécie já descrita.
Dois genótipos aproximavam-se mais de estirpes vistas noutros cetáceos, enquanto o terceiro se posicionava num ramo bastante mais distante.
Esta separação sugeriu que os cachalotes-pigmeus podem albergar mais do que uma linhagem adaptada ao estômago, sendo que pelo menos uma parece invulgarmente distinta.
Danos nos estômagos
Úlceras, tecido semelhante a cicatriz e vermes parasitas apareciam repetidamente nos mesmos estômagos onde foram detetadas as novas bactérias.
“Todos os quatro cachalotes que testaram positivo para Helicobacter tinham patologia gástrica visível”, afirmou Page.
Num dos animais, foram encontradas duas formas bacterianas em tecido da câmara anterior do estômago, um indício de que infeções duplas podem agravar os danos.
Apesar disso, as lesões não eram suficientemente marcantes para serem apontadas como causa direta de morte.
Porque é que as bactérias importam
Algumas espécies de Helicobacter - bactérias que colonizam o estômago ou os intestinos - instalam-se na camada de muco do estômago e conseguem manter o revestimento irritado durante anos.
“As bactérias Helicobacter têm estado há muito associadas a perturbações gastrointestinais em humanos e noutros animais, incluindo gastrite crónica, úlceras e até cancro gástrico”, disse Page.
Cientistas de mamíferos marinhos relataram pela primeira vez H. cetorum e outras espécies relacionadas em golfinhos e baleias há mais de duas décadas.
Esse historial fez com que o achado na Flórida parecesse menos uma exceção e mais parte de um problema já conhecido.
Caminhos através da água
Ainda não se sabe de que forma os cachalotes-pigmeus adquirem estes micróbios, mas outros trabalhos indicaram que a água do mar pode transportar bactérias aparentadas.
Em muitos animais, estes microrganismos também se podem disseminar por via oral ou fecal, embora ninguém tenha traçado esse percurso neste caso.
Como estes cetáceos se alimentam de lulas e peixes após mergulhos profundos, a exposição através das presas continua a ser uma via plausível.
Essa hipótese leva a questão para além de uma única espécie e aproxima-a de um tema mais amplo: o que mais circula, sem ser notado, ao largo.
Evidência e limitações
O número de casos manteve-se reduzido, porque os investigadores só encontraram as novas bactérias em quatro baleias ao longo de vários anos.
Os tecidos armazenados eram irregulares e algumas áreas do estômago ou lesões nunca tinham sido congeladas nem preservadas para testes futuros.
Essas falhas dificultaram perceber quão comuns eram as bactérias, seguir a infeção ao longo do tubo digestivo ou relacioná-la com lesões específicas.
Por agora, a descoberta é mais sólida como prova de que estas bactérias existem ali - não como prova definitiva de que causam dano.
Para onde a ciência segue
A recolha de tecido gástrico fresco poderá esclarecer se estes micróbios são residentes frequentes, invasores temporários ou fatores ativos na doença.
“Sem a capacidade de estudar estes animais encalhados ao longo de décadas, nunca teríamos descoberto estas bactérias”, afirmou Page.
A testagem de rotina em futuros encalhes poderá revelar se os cachalotes-anões e outros parentes transportam linhagens semelhantes.
O cultivo das bactérias e a leitura do seu código genético completo fariam evoluir o trabalho de simplesmente nomear diferenças para explicar o seu comportamento.
Vida marinha e mistérios do oceano
As infeções ocultas tornam-se mais relevantes quando vão minando a robustez, deixando animais já vulneráveis com menos capacidade para se alimentarem, mergulharem ou recuperarem.
Um dos cachalotes infetados apresentava também inflamação do cólon, levantando a possibilidade de que o problema se estenda para além do estômago.
Quando os encalhes são frequentes, até perdas moderadas de saúde podem repercutir-se numa população antes de alguém reconhecer o padrão.
É por isso que uma bactéria gástrica invulgar em quatro baleias pode, ainda assim, dizer algo sério sobre os mares que as rodeiam.
Os cachalotes-pigmeus encalhados na Flórida expuseram uma história microbiana que cruza doença animal, ecologia oceânica e os pontos cegos da ciência marinha.
O próximo passo é amostrar com mais clareza a partir de novos encalhes, porque é aí que pistas desconcertantes começam a transformar-se em respostas úteis.
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