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Spotlight Medical: IA myStage Dx prevê o risco de recidiva no cancro da mama

Médica explica resultados de exames genéticos a paciente numa consulta, com fita rosa sobre a mesa.

Todos os anos, milhares de mulheres com cancro da mama em fase inicial acabam por receber tratamentos adjuvantes pesados sem necessidade real. Para quebrar este ciclo de sobreatratamento, a startup francesa Spotlight Medical desenvolveu uma IA capaz de antecipar, com uma precisão sem precedentes, o risco efectivo de recidiva - e já aponta a outros objectivos.

A luta contra o cancro da mama é um processo longo. Depois da remoção do tumor, inicia-se uma verdadeira corrida contra o tempo para antecipar a evolução da doença e definir o plano pós-operatório mais ajustado. Nessa etapa, medir o risco de recidiva torna-se determinante para a decisão clínica. Como resume Sylvain Berlemont, cofundador e CEO da Spotlight Medical, numa entrevista ao Presse-citron: “Em oncologia, a pergunta mais importante é: qual é a probabilidade de a doença voltar?”.

É precisamente com base nessa estimativa que o oncologista tem de decidir quais as terapias complementares a adoptar. “Se o risco de recaída for baixo, tende a simplificar o protocolo ou a evitar certas moléculas. Pelo contrário, se esse risco for elevado, vai intensificar e escalar os tratamentos”, acrescenta. O problema é que as ferramentas actuais não são suficientemente exactas. Sem conseguir captar com fidelidade o risco individual de cada doente, as análises e critérios standard acabam, muitas vezes, por pecar por excesso de prudência.

O resultado é que milhares de mulheres são classificadas como em “alto risco” e recebem tratamentos adjuvantes intensivos, apesar de nem sempre precisarem deles. “Se avaliamos mal o risco de recidiva, escolhemos o tratamento errado. E isso tem um impacto directo e imediato na vida das doentes”, sublinha o responsável. E esta realidade afecta um número muito significativo de pessoas.

Efeitos secundários pesados

Todos os anos, em todo o mundo, cerca de 650 000 doentes recebem um diagnóstico de cancro da mama precoce e são categorizadas como de alto risco de recaída. Para estas mulheres, o protocolo habitual implica um arsenal terapêutico que combina quimioterapia, hormonoterapia e, mais recentemente, inibidores de CDK4/6. As consequências reflectem-se na qualidade de vida: estas substâncias podem provocar neutropenias - ou seja, um ataque ao sistema imunitário - e também diarreia diária durante todo o tratamento, “que se prolonga por dois a três anos”, precisa Sylvain Berlemont.

No entanto, “sabemos que 60 % das doentes não precisam desse medicamento adicional. Com o tratamento standard de quimioterapia e hormonoterapia, já têm um prognóstico muito bom”, aponta. Então porque é que lhes é prescrito? Porque, até aqui, os clínicos não tinham uma forma fiável de identificar, com precisão, quais as doentes classificadas como de “alto risco” que, afinal, não necessitavam dos inibidores de CDK4/6. Perante a incerteza, a decisão tende a seguir o princípio da precaução. É aqui que a Spotlight Medical afirma ter mudado o panorama.

myStage Dx: um software de IA validado cientificamente

A jovem startup parisiense desenvolveu o myStage Dx, um software de diagnóstico baseado em inteligência artificial (IA), concebido para “se integrar no percurso da doente” após a cirurgia, imediatamente antes de se planear e definir os tratamentos, explica Sylvain Berlemont.

Na prática, a solução avalia uma imagem digital do tumor obtida a partir de uma lâmina de tecido standard, combinando-a com os dados clínicos habituais da doente. Tudo isto sem exigir exames adicionais e sem gerar custos materiais extra para a unidade de saúde. A eficácia do myStage Dx foi demonstrada num estudo de validação publicado no conceituado Journal of Clinical Oncology (JCO). Ao analisar dados de milhares de doentes provenientes de coortes de investigação, o software alcançou um resultado relevante: reclassificou como “risco baixo” quase 20 % das mulheres que tinham sido inicialmente consideradas de alto risco segundo os critérios clássicos.

Os números reforçam a conclusão. 9 anos após o diagnóstico, 95,4 % das doentes identificadas como “risco baixo” pela IA continuavam vivas e sem qualquer recidiva à distância. É um valor expressivo que valida, cientificamente, a possibilidade de reduzir o peso do protocolo com segurança, sem comprometer as probabilidades de cura.

Outros tipos de cancro já na mira

A Spotlight Medical ambiciona ir mais longe com esta tecnologia. “Ao contrário de outras tecnologias, a IA é muito rápida de desenvolver, muito poderosa e muito escalável, ou seja, conseguimos endereçar muitos casos de uso”, destaca o CEO. “Muitos testes actualmente, como os testes genómicos, baseiam-se em tecnologias mais pesadas. Alguns exigem anos de desenvolvimento em laboratório”, acrescenta. No caso da empresa, o software foi concebido e obteve validação clínica em apenas 24 meses. E, além disso, acaba de obter a marcação CE.

Isto abre oficialmente a porta à comercialização e à implementação do myStage Dx em larga escala na Europa. “Agora, será preciso contactar os centros e começar estudos-piloto com cada um deles”, antecipa Sylvain Berlemont. Outro aspecto importante é que uma tecnologia deste tipo permitirá “uma poupança directa para os pagadores, como a Segurança Social” - ou, mais exactamente, uma reafectação de recursos para tratar melhor, de forma global, o conjunto dos doentes, analisa.

Além disso, prever o risco de recidiva no cancro da mama é apenas o primeiro passo para a startup francesa. “A nossa visão é, de facto, desenvolver esta plataforma de IA clínica para, no futuro, abranger todos os cancros sólidos”, confida. Estão já a ser estudadas vias concretas para aplicar este método de avaliação de risco a cancros da próstata, da pele ou da esfera ORL - um plano de desenvolvimento ambicioso com o objectivo de transformar a medicina de precisão.

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