As ondas de calor podem comprometer as metas europeias de combate ao aquecimento global, devido à necessidade crescente de recorrer à refrigeração dos edifícios, alertou o diretor executivo da Casa da Arquitetura, em entrevista à Lusa.
"A Europa está neste momento num impasse. Por um lado, quer atingir as metas ambientais e poupar energia, não ter ares condicionados, nem outras fontes de gastos energéticos. Por outro lado, está a sofrer com a mudança climática, que obriga a que os edifícios tenham ar condicionado, o que é completamente contrário às metas que definiu", afirmou o arquiteto Nuno Sampaio.
Dados divulgados na quarta-feira pelo Eurostat indicam que, em apenas seis anos, o consumo energético destinado ao arrefecimento das habitações na União Europeia duplicou, impulsionado pela subida das temperaturas e pelo uso mais generalizado de ar condicionado.
Europa enfrenta mais calor e edifícios pensados para o frio
"Será provavelmente o continente que mais sofrerá com as alterações climáticas, principalmente o norte da Europa, o sul também, mas o norte foi sempre desenhando cidades para responder às condições climáticas que tínhamos, que era frio", observou.
Na arquitetura destes territórios, explicou, a prioridade consistia em evitar a perda do calor produzido no interior das habitações. "Eram feitos isolamentos térmicos muitíssimo grandes, por fora dos edifícios, e aqueciam-se as casas e o importante era não deixar que o calor saísse", referiu Nuno Sampaio, a propósito da realidade dos países da Europa central e do norte.
Embora o frio continue a fazer-se sentir, as projeções climáticas apontam para temperaturas altas cada vez mais regulares e intensas, em resultado do aquecimento global. "Isto é uma coisa que já é irreversível", observou.
Adaptar cidades ao calor
Os arquitetos estão atualmente a estudar formas de adequar as habitações e as cidades a episódios extremos de calor e de chuva intensa, provocados por uma evaporação mais elevada.
"Temos de conseguir acomodar esta nova situação", disse Nuno Sampaio, também curador da Bienal de Arquitetura Ibero-Americana, agendada para a primeira semana de novembro, em Brasília, onde estas matérias serão debatidas.
Segundo o arquiteto, em determinados períodos do ano a Europa enfrenta picos de calor que aquecem as cidades, o espaço público e os edifícios, sem que estes estejam preparados para libertar essa energia térmica. "A preocupação em alguns momentos do ano na Europa é termos um pico de calor, que aquece a cidade, o espaço público, e as construções não estão preparadas para dissipar esse calor", admitiu Nuno Sampaio, apontando como exemplo a ausência de ventilação transversal e as janelas concebidas para não abrir ou com dimensões reduzidas.
Nos países nórdicos, onde a luz é escassa, as janelas amplas não contam com proteção solar. "Pelo contrário, o que eles queriam era que entrasse luz, para não gastarem em iluminação interna".
Também as grandes superfícies envidraçadas dos edifícios, hoje expostas a um "sol mais forte", deixam entrar uma temperatura "muito elevada", explicou Nuno Sampaio. Ao contrário de países habituados a calor intenso, os sistemas da Europa central e do norte não foram concebidos para arrefecer os espaços.
"Não foram trabalhados para isso, têm pavimentos de aquecimento central, com piso radiante, aquecimento de radiadores, não têm ar condicionado", salientou o arquiteto.
Arquitetura e arrefecimento perante o aquecimento global
Na perspetiva de Nuno Sampaio, a Europa, até agora destacada na luta contra as alterações climáticas, poderá tornar-se "a primeira grande zona terrestre a sofrer diretamente", colocando em risco as metas definidas para mitigar o aquecimento global.
Entre as soluções de menor impacto ambiental referidas pelo arquiteto estão fachadas concebidas com elementos capazes de reduzir a temperatura dos edifícios e a introdução de vegetação.
"A Europa vive este drama neste momento porque está numa área territorial que foi feita para proteger do frio e manter o calor dentro de casa, para agora ter de lidar com temperaturas e exposições solares altíssimas. Não tem as condições, nem da arquitetura da cidade, nem da construção, nem muitas vezes da própria estrutura de arrefecimento", concluiu Nuno Sampaio, que pretende envolver os governos de Portugal, Espanha e Brasil no debate destas questões durante a Bienal de Arquitetura Ibero-Americana.
"Quando a arquitetura não ajuda, a tecnologia ajuda. Só que no caso da tecnologia, o ar condicionado não é muito bom para o ambiente", advertiu.
Para o arquiteto, a Europa está assim perante um dilema que exige respostas de curto prazo, já que os efeitos do aquecimento do clima se fazem sentir, enquanto a transformação urbana e arquitetónica requer intervenções de médio e longo prazo.
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