As consequências de uma decisão aparentemente simples - manter os relógios alinhados com o ciclo natural do Sol - podem traduzir-se em vidas salvas, menos acidentes e melhor saúde mental. Não é apenas “perder” uma hora de sono; pequenas alterações propagam-se pela nossa saúde, pelos locais de trabalho e até pelo futuro das crianças.
Sou neurologista e dedico-me à saúde do sono. Ao longo da prática clínica, vi de perto como dormir mal tem efeitos negativos profundos, com custos pessoais e económicos muito elevados.
Apesar de a investigação ser esmagadora a favor de políticas públicas que protejam o sono - como adiar o início das aulas para respeitar a biologia dos adolescentes e adoptar o horário padrão de forma permanente - estes temas continuam, em grande medida, ausentes do debate político.
As investigações ao desastre do vaivém espacial Challenger, em 1986, mostraram que decisores-chave trabalhavam com muito poucas horas de sono, levantando preocupações de que a fadiga tenha comprometido o julgamento.
De forma semelhante, em 1989, o derrame de petróleo do Exxon Valdez provocou uma enorme catástrofe ambiental. A investigação oficial concluiu que o terceiro imediato, responsável por governar o navio, estava a funcionar com demasiado pouco sono, entre outros problemas.
Embora estes desastres não tenham sido provocados pelo horário de verão, as análises pós-acidente e os relatórios associam-nos de forma conclusiva à fadiga. Servem como lembrete dos perigos bem documentados da privação de sono e dos erros relacionados com o cansaço.
Ainda assim, um vasto conjunto de estudos indica que, todos os anos, a mudança para o horário de verão agrava desnecessariamente estes riscos, perturbando o sono de milhões de americanos e aumentando a probabilidade de acidentes, problemas de saúde e erros fatais.
A privação de sono tem custos reais
A privação crónica de sono não se limita a deixar as pessoas cansadas. Estima-se que represente cerca de US$411 mil milhões por ano em perdas de produtividade e em custos de cuidados de saúde. Dormir mal está associado a falhas no trabalho, acidentes rodoviários e problemas de saúde de longo prazo - impactos que acabam por pesar sobre empresas, famílias e a economia no seu conjunto.
A boa notícia é que há solução. Políticas de sono mais inteligentes - como manter o horário padrão permanentemente e começar a escola mais tarde - podem aumentar a eficiência, melhorar a saúde e salvar vidas.
Acordar antes do amanhecer
Nos EUA, os adolescentes são o grupo etário com mais privação de sono. Vários estudos e inquéritos indicam que entre 71% e 84% dos alunos do ensino secundário dizem dormir menos do que o necessário.
Grande parte do problema está nos horários de entrada demasiado cedo, que obrigam os jovens a acordar antes de o relógio biológico estar preparado. Quem tem um adolescente em casa conhece a cena: levantar-se com dificuldade antes de nascer o sol, sair apressado sem pequeno-almoço e esperar no escuro pelo autocarro escolar.
Mais de 80% das escolas públicas de 2.º e 3.º ciclos e do ensino secundário nos EUA começam antes das 8:30, com 42% a iniciarem antes das 8 e 10% antes das 7:30. Como consequência, em alguns distritos os autocarros passam para recolha tão cedo como às 5.
O que muitas pessoas desconhecem é que, na adolescência, ocorre um desfasamento natural dos ritmos circadianos em cerca de duas horas. Impulsionada por hormonas e por factores biológicos, essa mudança torna difícil adormecer antes de, aproximadamente, as 23. O corpo dos adolescentes não está “programado” para estes horários; no entanto, a escola e a sociedade foram organizadas de forma a obrigá-los a funcionar no seu pior período do dia.
Notas a descer, condução com sonolência e depressão
Adolescentes privados de sono tendem a apresentar piores classificações e resultados em testes, mais acidentes de viação por condução com sonolência, maior consumo de álcool e drogas e taxas mais elevadas de depressão, ansiedade, suicídio e comportamentos agressivos - incluindo levar armas.
Para além dos ganhos em saúde, estudos concluíram que passar a iniciar as aulas às 8:30 ou mais tarde poderia acrescentar US$8.6 mil milhões à economia em apenas dois anos, em parte devido ao aumento das taxas de conclusão.
Existem preocupações com possíveis custos acrescidos de transporte - por exemplo, a necessidade de mais autocarros ou motoristas devido ao escalonamento dos horários. Ainda assim, alguns distritos verificaram que a optimização de rotas pode compensar a despesa, tornando a mudança neutra em custos ou mesmo geradora de poupança.
Um exemplo: um estudo em Boston mostrou que reorganizar os horários dos autocarros com algoritmos avançados reduziu o número de veículos necessários e melhorou a eficiência. Isso permitiu que os alunos do ensino secundário começassem mais tarde, alinhando melhor o horário escolar com os seus ciclos naturais de sono. Além de apoiar a saúde do sono na adolescência, a medida poupou ao distrito US$5 milhões por ano.
Mais enfartes, acidentes e suicídio
Em março, a maioria dos americanos adianta os relógios para o horário de verão. A investigação mostra que esta mudança perturba o sono e se traduz em efeitos adversos mensuráveis, incluindo um aumento significativo de enfartes. E os impactos não desaparecem de imediato: prolongam-se durante dias, enquanto trabalhadores privados de sono tentam adaptar-se.
O efeito na saúde mental também é preocupante. As taxas de suicídio sobem nas semanas seguintes à mudança, sobretudo entre pessoas já vulneráveis à depressão.
Ao contrário do horário de verão, o horário padrão acompanha o ritmo circadiano natural do corpo, regulado sobretudo pela exposição à luz solar. O relógio interno estabiliza melhor quando a luz da manhã surge cedo, sinalizando ao organismo que é hora de despertar e ajudando a regular funções biológicas essenciais, como a produção hormonal, o estado de alerta e o metabolismo.
Já o horário de verão prolonga artificialmente a luz ao fim do dia, atrasa a libertação de melatonina e dificulta adormecer a uma hora biologicamente adequada.
Segundo estudos, adoptar o horário padrão de forma permanente poderia evitar até 5.000 suicídios por ano ao reduzir a depressão sazonal, diminuir erros, lesões e absentismo no trabalho e tornar as estradas mais seguras - com potencial para prevenir 1.300 mortes rodoviárias por ano.
Os tempos estão a mudar
Os EUA experimentaram o horário de verão permanente em 1974. A medida foi tão impopular que o Congresso a revogou em apenas nove meses.
A Rússia tentou o mesmo, em 2011, mas regressou atrás três anos depois. O Reino Unido abandonou o horário de verão permanente em 1971, após três anos, e Portugal em 1996, ao fim de quatro. Em todos estes países, concluiu-se que a mudança gerou descontentamento generalizado, preocupações de saúde, mais acidentes de viação de manhã e perturbações nos horários laborais. Actualmente, nenhum país adopta o horário de verão durante todo o ano.
Estes casos funcionam como evidência do mundo real de que o horário de verão permanente é indesejável: desagrada ao público, levanta problemas de segurança e tem efeitos negativos na saúde - e todos acabaram por recuar. Desde 2022, o debate reacendeu-se, impulsionado em grande medida pela proposta do antigo senador norte-americano Marco Rubio, a Lei de Proteção do Sol, que pretende tornar permanente o horário de verão.
No entanto, a designação é enganadora porque não “protege” o sol; pelo contrário, elimina a luz crucial da manhã, essencial para regular os ritmos circadianos. Grandes organizações de saúde, bem como o Conselho Nacional de Segurança, opõem-se firmemente ao horário de verão permanente devido aos riscos amplamente documentados.
Há sinais de que os EUA começam finalmente a levar estas questões a sério. Entre 13.000 distritos escolares, 1.000 adoptaram, por iniciativa própria, horários de entrada mais tardios. A Califórnia e a Florida aprovaram leis que exigem que as escolas secundárias comecem, no mínimo, às 8:30. A obrigação na Califórnia entrou em vigor em 2022, e na Florida está prevista para 2026.
O horário padrão permanente e o início das aulas mais tarde não são ideias radicais. São soluções práticas, baseadas em evidência e ancoradas na biologia humana. Para aplicar estas mudanças a nível nacional, seria necessária uma intervenção do Congresso.
Ainda assim, a lei federal actual já permite que os estados adoptem o horário padrão permanente - como fizeram o Arizona e o Havai - criando um precedente para o resto do país.
Joanna Fong-Isariyawongse, Professora Associada de Neurologia, Universidade de Pittsburgh
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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