Nascido nos EUA, o Camp Dream. Speak. Live chegou a Portugal e realiza agora a sua segunda edição. O objectivo passa por mostrar a crianças e jovens com gaguez que a sua voz conta - e por lhes dar ferramentas para ganharem segurança ao comunicar.
Um campo intensivo em Cascais para crianças e adolescentes com gaguez
No pátio da Escola Superior de Saúde de Alcoitão, em Alcabideche (Cascais), a agitação de quase duas dezenas de crianças e jovens enche de vida uma manhã passada entre telas, pincéis e paletas. Uns preenchem uma tela com figuras e balões de fala; outros desenham um escudo protector com uma orelha e uma ampulheta; há quem dê cor a uma montanha imponente, com dois percursos - um recto de um lado e outro cheio de curvas - e quem retrate um grupo de crianças, todas diferentes, reunidas à volta de um grande balão de fala amarelo. Pelo meio, brincam, riem e falam - falam muito - sem travões nem vergonha. À primeira vista, podia ser apenas um momento de expressão artística, quase abstracta. Mas, aqui, cada desenho tem um significado concreto.
O modelo CARE no Camp Dream. Speak. Live: Comunicação, Autodefesa, Resiliência e Educação
As figuras e os balões de fala remetem para a importância de construir uma comunicação eficaz e confiante, mesmo quando surgem episódios de gaguez. O escudo traduz a autodefesa: a orelha representa a capacidade de escutar e a ampulheta simboliza o tempo que é preciso dar a quem comunica de forma diferente. Já a montanha, com os seus dois caminhos, aponta para a resiliência e para as oscilações que fazem parte do dia-a-dia de quem gagueja. Por fim, o círculo de crianças em torno do balão de fala remete para a educação - a necessidade de disponibilizar à família, à criança e à comunidade informação credível sobre gaguez, reduzindo estigmas e preconceitos.
Em conjunto, estes elementos materializam os quatro pilares do modelo CARE - Comunicação, Autodefesa, Resiliência e Educação - que sustenta, do ponto de vista conceptual e clínico, o Camp Dream. Speak. Live (sonha, fala, vive). Trata-se de um programa intensivo de uma semana para crianças e adolescentes que gaguejam. Criado nos EUA, na Universidade do Texas, assenta na evidência científica disponível e tem sido replicado em vários países. Em Portugal, decorreu na última semana a segunda edição, com uma meta bem definida: empoderar crianças e jovens com gaguez.
O que a evidência diz e o que o campo pretende mudar
Jaqueline Carmona, terapeuta da fala, docente da Escola Superior de Saúde de Alcoitão e responsável pela organização do campo, enquadra o tema: "A evidência mostra que 5% a 8% das crianças entre os dois e os seis anos gaguejam. E o que muitas vezes se trabalha com elas, em contexto de terapia da fala, é no sentido de se substituir um discurso com bloqueios, repetições e prolongamentos por um outro discurso, mais lento, com outras palavras. Há quase um policiamento do modo de falar, que exige muito esforço cognitivo, que faz com que o discurso perca emoção e prosódia, que não tenha exatamente o que a pessoa quer dizer, que se torne confuso por causa destes malabarismos comunicativos todos. E que pode levar a pessoa a inibir-se de falar, porque se lhe dizem "não fales assim, encontra sinónimos" é porque a outra forma não é bem-vista. Eu não digo que algumas das técnicas não sejam úteis, mas não basta. O objetivo do campo é mostrar-lhes que os queremos ouvir."
Actividades diárias e o núcleo terapêutico
Para cumprir esse propósito, o programa organiza perto de uma dezena de actividades por dia - algumas mais artísticas, outras mais físicas - incluindo simulações e as chamadas estações CARE, sessões estruturadas que são o coração terapêutico do campo.
Nessas sessões trabalha-se, por exemplo, a autorrevelação. "A abordagem do campo é no sentido de partilharem com quem os rodeia que gaguejam, porque assim, eu, pessoa que gaguejo, escuso de esconder, e o interlocutor escusa de estar na dúvida. E isto acaba por ajudar na comunicação. É um dos pontos em que há mais evidência científica." Há ainda outra dimensão que pesa muito para os participantes: "Muitos deles não conhecem crianças que gaguejam, são os únicos na turma. Aqui, de repente, não são os únicos e isso por si só é poderoso".
"Três passos à frente"
Caetana, 11 anos, de S. Domingos de Rana (Cascais), pede a palavra e, com uma maturidade surpreendente, resume a postura que defende quando enfrenta abordagens indesejadas: "em vez de dar dois passos atrás, é preciso dar três à frente". À "Notícias Magazine", conta que começou a gaguejar aos cinco anos; até aos oito, gaguejava muito; os colegas gozavam com ela e houve muitas lágrimas. Ainda assim, diz que os pais sempre a empurraram para a frente, para não desistir nem ficar parada. Com o tempo, a gaguez diminuiu bastante - ao ponto de, recentemente, ter contado a colegas que gaguejava e eles nem terem acreditado.
Mesmo assim, faz questão de voltar ao campo (está no segundo ano e, por isso, exibe com orgulho a etiqueta de "líder" ao peito) e de apoiar quem vive o mesmo, incentivando a "não desistir", a ter "confiança e paciência" e, precisamente, a dar três passos à frente.
Pedro, 14 anos, de Belas (Sintra), também "líder", diz de imediato que o campo "é muito fixe e ajuda muito", sobretudo a "entender a gaguez e a saber como melhorar". Realça a relevância da autorrevelação e aponta ainda o valor de recorrer mais a gestos, para tornar a mensagem mais clara.
Camila, 13 anos, vinda de Portimão, participa pela primeira vez e garante que está a gostar - especialmente dos jogos e do teatro. Fala com dificuldade, pisca os olhos e faz vários movimentos (os chamados comportamentos secundários). Define a gaguez como "quando ficamos presos nas palavras" e reconhece que as técnicas que aprende na terapia da fala "ajudam" - tal como o campo. Assume que comunicar é exigente e que se cansa, mas mantém-se firme: não desiste, nunca desiste. É a resiliência, tal como na montanha de dois caminhos.
Frases para responder a comentários desagradáveis
Entretanto, chega a última actividade do dia. O desafio é escrever, num post-it, possíveis respostas a comentários desagradáveis. No mar de post-its que vai cobrindo o quadro branco no chão, somam-se mais de duas dezenas de mensagens - sinais claros de que o trajecto do empoderamento está a seguir na direcção certa.
"Isso magoa-me", lê-se num pequeno coração assinado por Caetana. "Foste pouco simpática comigo, este é o meu modo de falar", escreve Salvador, de seis anos. "Esta é a minha forma de falar e se não gostas podes ir embora", aponta Pedro, o adolescente "líder". E Frederico, de sete anos, indiferente à gaguez e com respostas sempre prontas, resume tudo numa frase: "Não temos de pedir desculpa por gaguejar."
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