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Estudo no Reino Unido alerta para bactérias em alimentos crus para animais de estimação

Pessoa a preparar comida húmida para cão num cão doméstico, com criança a brincar ao fundo.

Um novo estudo concluiu que mais de um em cada três alimentos crus para animais de estimação vendidos no Reino Unido continha bactérias nocivas, e que quase três em cada dez ultrapassavam os limites de segurança.

Este resultado transforma uma escolha alimentar antes mais “de nicho” num alerta de saúde pública, porque o perigo pode passar da refeição do animal para as mãos, para a cozinha e para os espaços partilhados em casa.

Problemas nos alimentos crus para animais de estimação

Ao analisar 380 produtos congelados comprados no Reino Unido entre março de 2023 e fevereiro de 2024, os investigadores encontraram contaminação com frequência suficiente para que o manuseamento do dia a dia faça parte do risco.

Frieda Jorgensen e colegas, da Agência de Segurança Sanitária do Reino Unido (UKHSA), detetaram Salmonella em 21% das amostras e Campylobacter em 14%.

Nos mesmos produtos, também surgiram E. coli produtora de toxina Shiga - uma estirpe que liberta uma toxina capaz de lesar o intestino e os rins - em 12% das amostras, e estafilococos resistentes à meticilina em 10%.

Estes números quantificam a dimensão do problema, mas, por si só, ainda não explicam como um congelador doméstico pode tornar-se um ponto de exposição.

Porque é que o cru “sobrevive”

Como estas refeições não são cozinhadas, muitas bactérias que seriam eliminadas pelo calor mantêm-se vivas até ao início da descongelação.

A congelação abranda o crescimento, mas não esteriliza os alimentos; assim, os microrganismos persistem e podem espalhar-se quando o líquido que escorre escapa.

Mesmo os níveis mais baixos de Campylobacter observados no estudo - um tipo de bactéria que pode provocar doença intestinal - foram relevantes, porque tanto os animais como as pessoas podem adoecer com doses pequenas.

Quando o líquido da descongelação se espalha, o cenário deixa de parecer apenas “nutrição do animal” e passa a assemelhar-se a uma exposição comum de cozinha.

Surgiram germes resistentes

Alguma da contaminação foi ainda mais preocupante porque a equipa encontrou resistência a antimicrobianos - bactérias que certos medicamentos já não conseguem travar - em várias amostras.

Cerca de uma em cada cinco amostras continha E. coli resistente a penicilinas e fármacos relacionados, e os estafilococos resistentes à meticilina também apareceram com frequência.

Em 1% das amostras, a E. coli mostrou resistência à colistina, um antibiótico de último recurso; não foi detetada resistência a carbapenemos, outro grupo terapêutico de última linha.

A ausência de resistência a carbapenemos não anula o aviso, mas indica que os padrões mais perigosos foram pouco comuns, e não algo generalizado.

Quando a embalagem verte

Os problemas não ficaram confinados ao interior, porque algumas embalagens verteram durante a descongelação e espalharam bactérias através do fluido que escapou.

Cerca de 8% das embalagens apresentaram fugas, e o estudo identificou bactérias em parte do exterior de algumas embalagens ainda antes de o conteúdo ser aberto.

Este padrão é compatível com contaminação cruzada - microrganismos a passar entre alimento, mãos e superfícies - o que torna o armazenamento e a limpeza parte integrante do risco.

Contagens baixas na embalagem deram algum alívio, mas selos com fugas continuam a criar oportunidades para contaminar mãos, bancadas e tigelas.

Animais, bactérias e humanos

O problema não termina na cozinha: os animais podem ingerir estas bactérias e, mais tarde, eliminá-las nas fezes.

Trabalhos anteriores mostraram que cães alimentados com carne crua tinham maior probabilidade de eliminar E. coli resistente após as refeições.

Isto é particularmente relevante em casas onde os animais lambem mãos, sobem para o mobiliário ou convivem de perto com bebés, pessoas idosas ou doentes.

Assim, o animal passa a ser um elemento móvel na cadeia de exposição, e não apenas um consumidor passivo de alimento contaminado.

Avisos anteriores também contam

No Reino Unido já existiam sinais prévios deste risco - não apenas teóricos - quando doença grave foi associada a alimentação crua.

Em 2021, um conjunto de casos graves de doença por E. coli em Inglaterra incluiu pessoas expostas a cães alimentados com dobrada crua.

Durante esse surto, os investigadores encontraram alimentos para animais contaminados, reforçando a hipótese de que dietas cruas podem chegar às pessoas por via indireta.

A existência de surtos anteriores torna mais difícil desvalorizar o novo levantamento como um problema restrito ao fabrico ou como um susto pontual.

Regras e falhas

O inquérito também evidenciou um desfasamento entre o que as regras exigem e o que, na prática, chega aos congeladores das famílias.

Cerca de 29% das amostras ultrapassaram os limites legais no Reino Unido, geralmente por presença de Salmonella ou por contagens de E. coli acima do permitido.

Aproximadamente 41% não apresentavam instruções claras de lavagem das mãos, e cerca de 17% não indicavam de forma inequívoca que o produto não se destinava ao consumo humano.

A falta de avisos não provoca contaminação por si só, mas elimina uma das defesas mais simples quando a contaminação já existe.

Quem enfrenta mais perigo

O risco aumenta mais rapidamente em casas com crianças pequenas, grávidas, pessoas idosas ou qualquer pessoa com o sistema imunitário fragilizado.

Um aviso da Agência de Normas Alimentares (Food Standards Agency) refletiu essa preocupação ao recomendar cuidados adicionais com alimentos crus para animais.

“Este inquérito mostra que estes produtos podem representar riscos para a saúde humana e animal”, afirmou Rick Mumford, Conselheiro Científico-Chefe interino da Food Standards Agency.

A preocupação estende-se também a quem nunca toca no alimento, porque tigelas, chão e fezes podem continuar a transportar a exposição.

Como as casas se adaptam

A resposta mais segura não é complexa, mas exige tratar alimentos crus para animais como se fossem carne crua.

As orientações atuais da Food Standards Agency recomendam congelar o produto, descongelá-lo separado dos alimentos para humanos e desinfetar as superfícies que tenham sido tocadas.

A separação de utensílios é importante, porque facas, recipientes ou prateleiras do frigorífico partilhados dão às bactérias um caminho fácil até às refeições da família.

Mesmo com limpeza perfeita, nem todo o risco de transmissão do animal para a pessoa desaparece; ainda assim, é possível reduzir acentuadamente a probabilidade de contaminação habitual na cozinha.

O que muda agora

Este estudo não demonstrou que todas as refeições cruas vão causar doença em pessoas ou animais, mas reduziu a margem de incerteza.

Para tutores, veterinários e reguladores, fica um quadro mais nítido: os alimentos crus para animais de estimação devem entrar na mesma conversa de risco que a carne crua.

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