A moda rápida tornou mais simples do que nunca acompanhar o crescimento das crianças. As peças são baratas, substituem-se sem esforço e aparecem em todas as cores imagináveis.
No entanto, uma investigação recente indica que pode existir um custo oculto que não salta à vista. Parte da roupa infantil pode conter chumbo - e não apenas em quantidades residuais.
Os primeiros resultados sugerem que, em certas peças, os níveis podem ultrapassar os limites de segurança dos EUA, o que levanta dúvidas sobre o impacto que a exposição do dia a dia pode ter na saúde das crianças.
Porque é que este problema está a gerar preocupação
As crianças pequenas interagem com o mundo de forma diferente dos adultos. Tocam em tudo. Levam coisas à boca. T-shirts, mangas, golas - sobretudo nos mais novos, quase nada fica “fora de alcance”.
Mesmo um contacto breve entre o tecido e a boca pode resultar em exposição. Sabe-se que o chumbo interfere com o desenvolvimento cerebral, o comportamento e o sistema nervoso.
Não existe um nível seguro, e as crianças com menos de 6 anos são consideradas as mais vulneráveis.
Um olhar mais atento sobre a roupa
O interesse por este tema começou em contexto familiar. Kamila Deavers começou a estudar a exposição ao chumbo depois de a sua filha, ainda pequena, ter apresentado valores elevados associados a revestimentos de brinquedos, antes de entrarem em vigor regras mais apertadas.
"Comecei a ver muitos artigos sobre chumbo na roupa da moda rápida", disse Deavers. "E percebi que nem muitos pais conheciam o problema."
Atualmente, Deavers trabalha com estudantes de licenciatura na Marian University para identificar fontes quotidianas de metais pesados e divulgar as conclusões ao público.
De onde vem o chumbo nos tecidos
A presença de chumbo em peças de vestuário não é totalmente inédita. Já foi detetado em botões, fechos de correr e molas, por vezes levando a recolhas de produtos. A diferença, neste caso, é que o chumbo parece estar no próprio tecido.
Uma hipótese aponta para o processo de tingimento. Alguns fabricantes recorrem ao acetato de chumbo(II) para ajudar os corantes a fixarem-se no tecido e a manterem as cores vivas ao longo do tempo.
Por ser uma solução de baixo custo, isto pode explicar porque aparece com maior frequência em artigos de moda rápida.
Testes de chumbo em roupa infantil
A equipa analisou 11 camisolas infantis, em cores que iam do vermelho e amarelo ao cinzento e azul. As peças vieram de quatro retalhistas diferentes, incluindo marcas de moda rápida e de desconto.
"Vimos que as camisolas que testámos estavam todas muito acima do limite permitido para chumbo de 100 ppm", afirmou Priscila Espinoza.
As cores mais intensas destacaram-se. Vermelhos e amarelos tendiam a apresentar valores superiores aos de tons mais discretos. Apesar de a amostra ser pequena, nenhum dos artigos cumpriu as normas de segurança dos EUA.
Quando as crianças mordem a roupa
Para aproximar os testes do que pode acontecer na vida real, a equipa fez simulações que reproduzem as condições dentro do estômago. O objetivo era perceber quanto chumbo poderia ficar disponível se uma criança levasse o tecido à boca ou o mastigasse.
Os resultados levantaram preocupação. Mesmo períodos curtos de contacto podiam empurrar a exposição para além do limite diário de ingestão definido pela Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA).
"Não só as crianças são as mais vulneráveis aos efeitos do chumbo, como também são a população que vai estar a pôr a roupa na boca", disse Cristina Avello.
A exposição repetida ao longo do tempo pode aumentar os níveis de chumbo no sangue ao ponto de ser necessária atenção médica.
Muitas perguntas ainda sem resposta
A investigação continua em curso e há questões que permanecem em aberto. Uma delas é o que acontece quando a roupa contaminada é lavada.
Os investigadores querem perceber se o chumbo pode passar de uma peça para outra dentro da máquina de lavar.
Estão também a estudar de que forma os detergentes interagem com compostos de chumbo e se pode haver acumulação de resíduos no interior das máquinas.
Existe a preocupação de que esses resíduos possam, com o tempo, chegar às águas residuais, criando um problema ambiental mais amplo.
Já existem alternativas mais seguras
Ainda assim, há soluções disponíveis. Existem formas mais seguras de fixar corantes nos tecidos sem recorrer ao chumbo.
Opções naturais, incluindo materiais de origem vegetal como casca de carvalho e casca de romã, podem ajudar os corantes a ligarem-se às fibras têxteis. O alúmen é outra alternativa considerada ambientalmente segura.
"Mas se quiser mudar a tecnologia da indústria do vestuário, isso vai custar muito dinheiro", disse Deavers.
Sem pressão por parte dos consumidores ou sem regulamentação mais exigente, as empresas podem demorar a fazer a transição.
Aumentar a sensibilização junto dos pais
Segundo os investigadores, o principal objetivo, neste momento, é sensibilizar. Muitos pais simplesmente não sabem que isto pode ser um problema.
"Tudo o que estamos a fazer só é importante e útil se falarmos sobre isso", disse Avello.
A discussão pode influenciar a forma como as pessoas compram, como as empresas reagem e como os padrões de segurança evoluem.
A investigação foi apresentada na reunião da primavera da Sociedade Americana de Química (ACS).
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