Uma mulher de 30 anos, nos Estados Unidos, foi informada pelos médicos de que tinha parasitas no cérebro, depois de dar entrada no hospital com uma sensação de ardor nos pés.
Tudo indica que os vermes terão sido lembranças indesejadas que a doente apanhou sem se aperceber durante viagens pela Tailândia, pelo Japão e pelo Havai.
Instalados no sistema nervoso central, estes invasores silenciosos não deram sinal de si durante 12 dias após o regresso a casa. Só então a sua presença desencadeou uma resposta imunitária intensa, cuja causa demorou ainda mais uma semana a ser identificada.
Do ardor nos pés à confusão
Ao longo de vários dias, a dor quente que começou nos pés foi subindo pelas pernas, tronco e braços, até culminar numa dor de cabeça lancinante, que nem doses frequentes de analgésicos conseguiam aliviar.
Na primeira ida ao serviço de urgência, os exames apenas revelaram um ligeiro aumento de glóbulos brancos, as células que ajudam a combater doença. Mas, após dias de desconforto persistente e um quadro de febre ligeira, a mulher procurou um segundo hospital, à procura de uma explicação.
Depois de ser tratada com anti-inflamatórios por via intravenosa e com um ansiolítico chamado lorazepam, a dor de cabeça acabou por diminuir e ela teve alta.
No entanto, os sintomas não desapareceram.
Na manhã seguinte, ao acordar, a mulher começou a fazer as malas para umas férias que não tinha planeado. A colega de casa reparou no comportamento estranho e incentivou-a a voltar para a cama. Horas depois, como a confusão se mantinha, o companheiro levou-a ao hospital.
"O desenvolvimento de confusão nesta doente com sintomas sensoriais, dor de cabeça e possível febre intermitente sugere a possibilidade de encefalite e aumenta ainda mais a preocupação com uma infeção do sistema nervoso central", explica o especialista em doenças infecciosas Joseph Zunt, da Universidade de Washington.
Exames e diagnóstico presuntivo de angiostrongilíase
Nas análises ao sangue, os médicos não encontraram indícios de parasitas, e uma TAC à cabeça não mostrou sinais preocupantes no interior do crânio. Ainda assim, quando a equipa realizou uma punção lombar, verificou que o líquido cefalorraquidiano (LCR) - que envolve o cérebro e a medula espinal - apresentava marcadores de meningite eosinofílica, uma forma rara de infeção cerebral que pode ser provocada por parasitas.
Tendo em conta as viagens recentes da doente e o conjunto de sintomas, os médicos consideraram que ela cumpria os critérios para um diagnóstico presuntivo de angiostrongilíase.
Verme do pulmão do rato: como surge e como foi tratado
Esta doença discreta é também conhecida como verme do pulmão do rato, por ser causada pelo parasita Angiostrongylus cantonensis. O seu ciclo de vida começa nos pulmões de um roedor e, mais tarde, passa para lesmas e caracóis.
A maioria das pessoas não come lesmas ou caracóis crus, mas basta dar uma dentada num vegetal de folha fresca que tenha sido contaminado por estes animais para que as larvas do parasita entrem no organismo sem que se note.
É uma das razões pelas quais lavar bem verduras e outros vegetais verdes é tão importante quando se permanece em regiões onde o verme do pulmão do rato circula, incluindo o Sudeste Asiático, as ilhas do Pacífico e a Austrália. Caranguejo ou camarão mal cozinhados também podem servir de via de transmissão, uma vez que estes animais igualmente se alimentam de lesmas e caracóis.
Quando os parasitas infetam o corpo humano, podem migrar para as artérias pulmonares e, a partir daí, deslocar-se para o sistema nervoso central, colocando em risco a vida do hospedeiro.
Só em casos ocasionais é possível observar as larvas no cérebro e confirmar o diagnóstico de forma definitiva. Na maior parte das vezes, os exames ao cérebro apenas sugerem lesões compatíveis com danos provocados por estes parasitas. A imagem abaixo, por exemplo, mostra sinais claros de lesões em áreas do cérebro de uma pessoa de 32 anos, indicativas de angiostrongilíase.
Felizmente, no caso desta mulher nos EUA, o cérebro foi poupado graças a um esquema de duas semanas com medicamentos capazes de atravessar a barreira hematoencefálica para tratar a angiostrongilíase. A doente recebeu ainda uma dose elevada de um esteroide, a prednisona, para ajudar a reduzir a inflamação cerebral.
Com a terapêutica combinada, os sintomas foram cedendo e, ao sexto dia de internamento, a mulher pôde regressar a casa - desta vez, sem passageiros escondidos no cérebro.
O estudo foi publicado na Revista de Medicina da Nova Inglaterra.
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