Restringir o acesso de adolescentes às redes sociais pode não os proteger tanto quanto parece - pode, isso sim, empurrar os riscos para outros locais, alerta uma nova análise.
Medidas como as já introduzidas na Austrália e agora previstas no Reino Unido podem reduzir alguns danos, mas também têm potencial para criar problemas novos.
O alerta surge numa altura em que os governos avançam a grande velocidade para responder às preocupações em torno da saúde mental dos jovens.
Uma proibição pode dar a sensação de ação firme, ao mesmo tempo que deixa as causas mais profundas por tratar. E pode levar alguns jovens para zonas da internet muito mais difíceis de acompanhar.
O quadro geral
O argumento é apresentado pela Dra. Amrit Kaur Purba, da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM).
A Dra. Purba realizou a análise com colegas e com um coautor adolescente. A ideia central é que uma proibição não funciona como uma solução simples e isolada.
Em vez disso, mexe numa parte de um sistema muito maior - que inclui famílias, escolas, plataformas de redes sociais e os próprios jovens. Quando um elemento se altera, os efeitos propagam-se pelos restantes.
Uma regra dirigida às contas pode mudar a forma como as empresas reagem, como os pais supervisionam e para onde os adolescentes se viram quando uma aplicação habitual lhes fecha a porta.
O risco de consequências não intencionais
A Dra. Purba e os coautores encaram as restrições como uma intervenção com impacto em todo o sistema, e não como uma correção comportamental “limpa” e delimitada. Esse olhar sistémico altera o que passa a contar como consequência.
“Uma restrição pode reduzir alguns danos enquanto desloca outros, e também pode gerar consequências não intencionais que só se tornam visíveis com o tempo”, disse a Dra. Purba à Earth.com.
Sem essa perspetiva mais ampla, os autores avisam que os governos arriscam implementar medidas vistosas que poucos compreendem verdadeiramente.
O resultado pode ser dano adicional, enquanto os fatores reais por trás dos problemas online ficam por resolver. O Reino Unido planeia impedir os menores de 16 anos de acederem às principais plataformas até 2027, seguindo o exemplo da Austrália.
Dados da Austrália
A Austrália oferece o primeiro teste concreto. Tornou-se o primeiro país a fixar, a nível nacional, uma idade mínima de 16 anos para contas de redes sociais, com a lei a entrar em vigor em dezembro de 2025.
Uma avaliação inicial, que acompanhou centenas de adolescentes australianos antes e depois da mudança, encontrou quase nenhuma redução no uso.
Três meses depois, mais de oito em cada dez menores de 16 anos continuavam nas plataformas abrangidas, e a maioria usava as suas próprias contas, de acordo com o estudo. Na prática, pouco se alterou.
A verificação de idade mais comum consistia em pedir para introduzir uma data de nascimento e, em seguida, permitir o acesso. Apenas uma pequena percentagem recorreu a contas falsas ou a navegação privada para contornar as regras.
O padrão encaixa de perto na análise: no papel, a proibição teve pouco efeito no comportamento real, porque os controlos das plataformas eram fracos e os adolescentes encontraram formas simples de os ultrapassar.
Aquilo que a lei alterou foi sobretudo a aparência de controlo - não a realidade diária de quem continuava a fazer scroll.
Um guião conhecido
Para antecipar o que poderá acontecer a seguir, os investigadores recorrem a setores que já enfrentaram regulação no passado.
As indústrias do tabaco e do álcool passaram décadas a aprender como atenuar regras, e a equipa da Dra. Purba defende que as empresas de redes sociais deverão adotar estratégias semelhantes quando as proibições começarem a ter impacto.
As empresas podem redefinir o que conta como “rede social”, de modo a que os seus produtos fiquem fora das novas regras.
Também podem investir mais em espaços relacionados ou menos regulados e apoiar-se em lobby, comunicação pública e financiamento de investigação para orientar as políticas a seu favor.
Como as proibições podem sair pela culatra
A regulação entra em vigor, mas as empresas adaptam-se. E os adolescentes também.
Quando ficam afastados das plataformas abertas, alguns podem migrar para espaços privados ou mais difíceis de monitorizar, como aplicações de mensagens encriptadas e chatbots de IA, onde a supervisão é reduzida e os adultos raramente entram.
Um artigo separado defende que proibições excessivamente rígidas muitas vezes saem pela culatra e produzem resultados negativos.
Os adolescentes interpretam-nas como uma tentativa de controlo e respondem escondendo o uso, o que vai corroendo a confiança entre os jovens e os adultos que deveriam protegê-los.
Quem beneficia mais
Uma proibição não terá o mesmo efeito para todos. Num email à Earth.com, Purba afirmou: “Uma política que é universal pode não ser vivida de forma universal.”
A análise indica que os jovens com famílias de apoio, competências digitais sólidas e atividades seguras fora do mundo online estão em melhor posição para lidar com o desaparecimento das suas plataformas habituais.
Já quem enfrenta isolamento ou ambientes familiares instáveis tem mais a perder. Para alguns, é na internet que o apoio realmente existe.
As redes sociais como tábua de salvação
O coautor adolescente escreve que as redes sociais podem ser “um lugar para escapar a situações difíceis”, onde se criam amizades e se encontram pessoas semelhantes.
Quando isso é retirado sem que haja alternativa, os jovens que mais dependiam desse recurso ficam com menos. É este risco silencioso a que a análise volta repetidamente.
Uma regra desenhada para proteger adolescentes vulneráveis pode acabar por cortar uma tábua de salvação, num contexto em que tinham poucas opções - enquanto os pares com maior suporte quase não sentem a mudança.
O dano não desaparece; tende a recair sobre quem tem menos capacidade para o suportar.
Medir o que realmente importa
Se as proibições avançarem de qualquer forma, os investigadores defendem que devem ser avaliadas com critérios adequados.
Argumentam que muitas avaliações se apoiam demasiado em métricas estreitas, como o tempo de ecrã ou o humor no curto prazo, e acabam por falhar grande parte do que uma proibição desencadeia na vida de um jovem.
Para obter uma visão mais completa, seria necessário acompanhar outros indicadores: envolvimento na escola, amizades, a resposta das plataformas e das empresas, e o que acontece ao longo de anos - não apenas de semanas.
A equipa sugere mapear primeiro o sistema inteiro, para que os decisores percebam como as partes se ligam e onde uma alteração num ponto gera efeitos noutro.
Políticas públicas e sucesso
Nada disto implica esperar por evidência perfeita antes de agir. A mensagem mais clara é que uma proibição, por si só, tende a parecer mais eficaz do que realmente é.
Questionada pela Earth.com sobre como avaliar o sucesso, a Dra. Purba afirmou: “Em última análise, a medida de sucesso mais significativa pode não ser apenas mudanças no comportamento dos jovens, mas se a regulação incentiva as empresas tecnológicas a conceber, desde o início, ambientes digitais mais seguros.”
Por esse critério, o mais difícil não é aprovar a lei - é obrigar as plataformas a ser construídas de outra forma.
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