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Como o nairovírus da carraça da Costa do Pacífico e a UC Riverside revelam um truque para escapar ao sistema imunitário

Cientista num laboratório a analisar uma estrutura molecular 3D no computador com microscópio ao fundo.

O seu corpo tem uma forma engenhosa de se defender de infeções. Quando um vírus entra nas suas células, o sistema imunitário liberta pequenos sinais de alarme para pedir reforços.

Esses sinais são proteínas chamadas ubiquitina e ISG15. Funcionam como bandeiras vermelhas a nível molecular, avisando o organismo de que algo perigoso está a acontecer.

Investigadores da Universidade da Califórnia, Riverside (UC Riverside) descobriram agora que alguns vírus emergentes já sabem exatamente como arrancar essas “bandeiras” antes de o corpo conseguir reagir.

Uma ameaça viral escondida

Os vírus transmitidos por carraças estão a expandir-se pelo mundo, e alguns dos mais recentes são particularmente discretos.

O exemplo mais conhecido é o vírus da febre hemorrágica da Crimeia-Congo, que mata mais de um terço das pessoas que infeta.

Mas o panorama não se fica por aí. Na última década, os cientistas identificaram cinco vírus totalmente novos capazes de infetar humanos e que recorrem ao mesmo tipo de estratégia. Três surgiram na China, um no Japão e um na Califórnia.

Todos estes vírus transportam uma proteína especial chamada OTU. Esta proteína atua como uma espécie de borracha molecular: remove das células infetadas os sinais de aviso.

Quando esses sinais desaparecem, o sistema imunitário deixa de perceber que há perigo a formar-se.

É como se um intruso atravessasse a casa enquanto desativa, um a um, todos os alarmes. Quando o sistema imunitário se apercebe de que algo está errado, o vírus já ganhou terreno.

Como o vírus atua

Assim que um destes vírus infeta o organismo, a proteína OTU entra imediatamente em ação. O seu objetivo é eliminar os sinais de alarme antes de o sistema imunitário conseguir “tocar a campainha”.

“O vírus usa estas proteínas para desarmar as defesas imunitárias do corpo em múltiplas fases, tornando mais fácil a infeção instalar-se”, afirmou Scott Pegan, investigador da UC Riverside.

É precisamente este ataque em várias etapas que torna os vírus transmitidos por carraças tão perigosos.

Em vez de bloquearem um único mecanismo de defesa, interferem com várias formas pelas quais o corpo normalmente deteta sinais de ameaça.

Nem todos os vírus são iguais

A equipa de Pegan comparou quatro vírus diferentes deste novo grupo para perceber se atuavam de forma idêntica. A expetativa era encontrar padrões semelhantes - mas os resultados foram inesperados.

Alguns destes vírus revelaram-se fracos a remover os sinais de alarme. Outros eram muito mais eficazes. E houve um em particular que se destacou por ser extraordinariamente competente a atacar, especificamente, células humanas.

Esse vírus chama-se nairovírus da carraça da Costa do Pacífico e foi encontrado em carraças na Califórnia. Entre os vírus analisados, foi o mais eficiente alguma vez observado a desligar os alarmes imunitários humanos.

Os cientistas ficaram surpreendidos com o nível de eficácia. Os dados indicam que este vírus desenvolveu uma capacidade própria para reconhecer e atacar, de forma direcionada, os sinais imunitários humanos.

Não se trata apenas de ser bom a neutralizar defesas em geral - é particularmente bom a neutralizar as nossas.

Um vírus que evolui depressa

Os investigadores depararam-se com um detalhe intrigante. Outros vírus de carraças já tinham aprendido a contornar o sistema imunitário humano, mas essa adaptação teria ocorrido há muito tempo, a partir de um ancestral comum.

No caso do nairovírus da carraça da Costa do Pacífico, porém, tudo indica que chegou a essa solução por conta própria.

Pegan descreveu o fenómeno como evolução convergente: quando entidades diferentes encontram, de forma independente, respostas semelhantes para o mesmo problema.

É provável que esta capacidade tenha surgido porque atacar o sistema imunitário humano lhe dava uma vantagem de sobrevivência.

Quando um vírus consegue escapar melhor às defesas do organismo, dissemina-se com mais facilidade. Tem mais tempo e mais oportunidades para infetar pessoas antes de ser eliminado. Ao longo de muitas gerações, isso traduz-se numa vantagem enorme.

O risco não é abstrato - está próximo. Os investigadores detetaram o nairovírus da carraça da Costa do Pacífico em cerca de 60 percent das carraças recolhidas na Califórnia.

Estas mesmas carraças já transmitem aos humanos a febre maculosa das Montanhas Rochosas e outras doenças.

Um vírus a espalhar-se sem dar nas vistas

“Existe uma preocupação de saúde muito real associada às picadas de carraça da Costa do Pacífico”, acrescentou Pegan.

“O nosso trabalho demonstra que um dos mecanismos do ortonairovírus da carraça da Costa do Pacífico usado para suprimir a imunidade do hospedeiro é altamente compatível com os humanos.”

“Juntando isto ao facto de este vírus ser transportado por uma espécie de carraça que já transmite doença às pessoas, sugere que o vírus pode estar a entrar em contacto com humanos e poderá potencialmente estar a circular sem ser detetado.”

Na prática, isto significa que o vírus pode já estar a infetar pessoas sem que ninguém o identifique.

Se alguém for mordido por uma carraça infetada e desenvolver sintomas ligeiros, pode assumir que se trata apenas de uma gripe. O vírus pode circular antes de se perceber que surgiu uma nova doença.

Persistem mais mistérios

O estudo também revelou algo ainda mais estranho.

Estas proteínas virais parecem ter uma terceira função que os cientistas desconheciam. E essa função adicional também ajuda o vírus a passar despercebido ao sistema imunitário.

O que, exatamente, faz essa função oculta ainda não é claro. Compreender estes mecanismos poderá ser decisivo para combater o vírus no futuro.

Antes de desenvolver tratamentos, é necessário mapear todas as formas como um vírus ataca.

Prever ameaças futuras

Os cientistas quiseram perceber se seria possível antecipar o quão perigoso pode ser um vírus desconhecido. Para isso, compararam previsões computacionais com resultados laboratoriais reais de mais de uma centena de mutações virais.

As previsões mostraram um desempenho moderado, com cerca de 50 percent de precisão. Quando restringiram a análise a um único vírus bem estudado, a precisão subiu para 82 percent.

A conclusão foi direta: as previsões por computador melhoram quando existe mais informação sobre a estrutura do vírus. Ainda assim, continuar a prever o comportamento de um vírus completamente desconhecido é difícil.

O que deve saber

“Se houver uma coisa que as pessoas devem retirar deste estudo, é que a rápida identificação de ortonairovírus que infetam humanos e de vírus relacionados, combinada com a sua capacidade de evoluir e contornar as defesas imunitárias humanas, sublinha o significativo potencial pandémico da família Nairoviridae”, afirmou Pegan.

Evitar picadas de carraça é a primeira linha de defesa. Medidas simples ajudam a prevenir a maioria das infeções transmitidas por carraças:

  • Use repelente de insetos.
  • Vista roupa de cores claras, para conseguir ver carraças com mais facilidade.
  • Verifique o corpo após atividades ao ar livre.

“As pessoas devem continuar a tomar medidas para evitar picadas de carraça. A nossa investigação reforça a importância de prestar atenção não só à exposição a carraças, mas também ao tipo de carraça envolvida, porque espécies diferentes podem transportar doenças que ainda não estamos a monitorizar de forma rotineira”, disse Pegan.

O panorama mais amplo é que novos vírus vão continuar a surgir.

À medida que os humanos ocupam novas zonas e as alterações climáticas deslocam populações de carraças, iremos encontrar vírus que nunca tínhamos visto. Ter consciência do risco é o primeiro passo para se proteger.

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